Uma Igreja intrometida



A Revista VOCE DI PADRE PIO, editada pelos Capuchinhos de San Giovanni Rotondo, Itália, costuma apresentar todos os meses Consultas de leitores com adequadas Respostas dum Frei Capuchinho.
No número de janeiro de 2007, um leitor pediu esclarecimentos sobre presumida intromissão da Igreja em campo que não lhe competiria (UMA IGREJA INVASIVA?) ao qual foi dada uma conveniente e esclarecedora resposta.--- Um devoto do Padre Pio julgou que a leitura dessa Consulta e Resposta poderia ser útil também para os freqüentadores do nosso Site e, por isso,. segue aí o texto traduzido para o português..

Nota: Talvez nem todos estejam a par do “Caso Welby”, por isso apresentam-se alguns dados sobre o mesmo, para se entender melhor tanto a Pergunta como a Resposta: - Piergiorgio Welby (1945-2006), afetado já aos 16 anos de idade por doença que o retinha na cama, tornou-se aos poucos um ferrenho ativista em favor do reconhecimento do direito à Eutanásia, escrevendo inclusive um livro: “Deixai-me morrer”. A ele uniram-se os políticos Radicais e os anticlericais em geral. Chegaram a pedir até a intervenção do Presidente da Republica, de Ministros e de políticos. Recorreram à TV e a Jornais, promovendo pesquisas para auscultar a opinião do povo. Chegou a haver vigílias em 50 cidades da Itália em favor da causa –eutanásia. - Piergiorgio, em 1997, sofreu uma crise respiratória e daí em diante teve que permanecer ligado a aparelhos para sobreviver, mas lutando para que os mesmos lhe fossem desligados. Enfim, em 20/12/2006, conseguiu o que desejava. Desligados os aparelhos, 40 minutos após, morreu (eutanásia). Os familiares e anticlericais pretendiam exéquias religiosas (mais para humilhar a Igreja), o que obviamente lhes foi negado. Organizaram então as cerimônias fúnebres na praça em frente à Igreja que haviam escolhido para as mesmas. Nessas participaram umas mil pessoas (com alguma oração pelo falecido?...). O Caso (toda a história, luta, polêmica...) teve e ainda terá uma enorme repercussão na Itália e além... Trata-se duma raivosa e feroz polêmica anticlerical, na qual também alguns (ou muitos?) assim chamados ‘católicos’ se deixaram engabelar. ----. Vamos ao texto da Revista:

Pergunta: “Uma Igreja Intrometida.

Quisera me ajudasse a entender: Do divórcio ao aborto, do recente caso Welby ao referendum sobre a procriação assistida. Encontramo-nos sempre e de qualquer maneira frente a uma Igreja que se contrapõe a qualquer intervenção do Estado tendente a reconhecer ao homem os seus direitos primários, como o de nascer ou morrer, de viver ao lado duma pessoa ou não. Não sei se terá a coragem de publicar estas minhas palavras, mas como católico convicto e fiel filho espiritual do Padre Pio parece-me dever afirmar que a Igreja é, na verdade, demasiadamente intrometida.
Savino --- Chieti”

Responde Frei Luciano Lotti

“Felizmente, do título de católico convicto e fiel filho espiritual do Padre Pio o senhor mesmo se apoderou por própria conta, porque - honestamente – eu teria tido alguma dificuldade em conceder-lho. E isto não porque o senhor conteste esta “Igreja intrometida” – [embora Padre Pio incluísse no obsequiosa obediência à Igreja também a impossibilidade de contestar os ensinamentos recebidos] – mas porque no DNA do católico convicto e, portanto, do fiel filho espiritual do Padre Pio, há a necessidade e, nestes nossos dias, a urgência de sermos uma Igreja intrometida. Ou somos sal da terra, ou não servimos a não ser para ser lançados fora e pisados pelos homens (cf. Mt 5,13).
Seja-me consentido, ao menos uma vez, elevar o tom da voz e passar uma carraspana no senhor e em tantos outros crentes, recordando-vos que, entre os pecados de omissão, há aquele da ignorância culpável, que acontece quando, frente a problemas como os acima citados, permanece-se indiferentes, ou então se emitem juízos ‘conforme a minha opinião, ou... de acordo com a minha autoridade’, sem dedicar tempo e esforço por formar-se uma convicção, para depois testemunhá-la; procurando entender bem as coisas à luz dos ensinamentos da Igreja.

Em princípio, não tenho medo de quantos possam atacar a Igreja ou os princípios éticos dos quais ela é portadora; fomos enviados por Cristo como ovelhas entre lobos e não podemos estranhar se, ferido o pastor, passarão a atacar as ovelhas. A própria dura oposição feita àqueles princípios universais (não somente religiosos), que a Igreja católica quer defender, entra naquele ‘ser do mundo mas não deste mundo’; indigna-me ao máximo a pérfida demagogia de quem explora sentimentos e situações, já de per si dolorosos, para fazer dos mesmos instrumento de batalha política e anticlerical..
O que me preocupa sobremaneira é o modo de pontificar de tantos católicos que, sem qualquer formação e somente por terem assistido a algum programa televisivo (mixuruca) de quarta categoria, estão dispostos a renunciar ao próprio credo e a compartilhar ou pelo menos tolerar uma concepção relativista da ética humana e social, somente porque a maioria vai naquela direção.

Nestas alturas porém, o que dizer quando parece que a Igreja decida “com o catecismo na mão e não com a piedade cristã”, como afirmou numa entrevista a Sra. Mina, esposa de Piergiorgio Welby? Somente que respeito profundamente a sua dor e consideraria injusto responder pelas páginas dum jornal, levando-lhe tantas motivações que ela provavelmente já conhece. Quisera porém fazer-lhe também um convite a prosseguir no caminho empreendido por seu marido. Na entrevista feita ao quotidiano “Republica” a Sra, diz não ser capaz, mas creio que peque por excessiva humildade. É importante a Sra. retomar o discurso do seu marido, mas não partindo da morte dele, isto é, do momento em que o circo da mídia e uma estremização errada transformaram um caso humano dolorosíssimo numa polêmica em favor ou contra a eutanásia e, em fim de contas, numa raivosa polêmica anticlerical.

Os crentes sabem, - e penso que a Sra. Mina está de acordo – que as razões da fé e as da cruz andam juntas e têm como última etapa não o Calvário mas a Ressurreição. Talvez seja o momento de cada um escutar mais as razões dos outros, de caminhar juntos para que a fé nos revele quem de fato seja o homem e quais os seus direitos primários e inalienáveis”.


Fonte: Tradutor Pe. Bernardino Trevisan