A Ressurreição como fato histórico



Vida Após a Morte: A Evidência – por Dinesh D’Souza
Regnery Publisching, 2009. www.regnery.com.

Muitas culturas e religiões concordam em admitir uma vida após a morte, mas somente uma defende que alguém verdadeiramente morreu e voltou à vida. Esta reivindicação é feita pelo CRISTIANISMO. Ninguém diz que Moisés ou Maomé, depois mortos, foram vistos redivivos em seus corpos. Se a afirmação cristã for verdadeira, isso prova não só a possibilidade de existir vida após a morte, mas também legítima especificamente o entendimento cristão da existência de vida após a morte. A título de argumento, vamos pois tratar da ressurreição como uma afirmação histórica, tal como qualquer outra. Aqui estão os quatro fatos a serem considerados.

Primeiro. Cristo foi julgado por seus inimigos, condenado à morte e crucificado. Segundo. Pouco depois do sepultamento, seu túmulo foi encontrado vazio. Terceiro. Muitos de seus discípulos, inclusive um ou dois céticos, afirmaram ter visto Jesus vivo em carne e osso e ter até interagido com ele, após sua morte. Quarto. Inspirados pela fé na ressurreição corporal de Cristo, os discípulos iniciaram um movimento que, apesar de perseguições e torturas por que passou, converteu milhões de pessoas para um novo estilo de vida, baseado no exemplo de Cristo e seus ensinamentos. Esses fatos são prevalentes na educação histórica moderna. São reconhecidos com o mesmo grau de certeza que outros fatos automaticamente aceitos como certos a respeito do mundo antigo: por exemplo, o fato de Sócrates ter ensinado na praça de Atenas, ou de César cruzando o Rubicão. Ou ainda o de Alexandre Magno vencendo a batalha de Gaugamela.

No campo da História, tomamos os fatos e tentamos compreendê-los. O historiador N. T. Wright, num gigantesco estudo, argumenta que a hipótese de Cristo ter de fato ressuscitado dos mortos pode soar intuitivamente inaceitável para muitos, mas que tem um enorme poder explanativo. Noutras palavras, se a ressurreição aconteceu, acaba-se dando crédito a todos os demais fatos enumerados acima. Ela nos ajudaria a entender por que o túmulo estava vazio, por que os discípulos pensaram ter visto Jesus depois de morto e por que essa assustadora percepção os motivou a evangelizar e lhes infundiu coragem para enfrentar perseguições e até o martírio antes de renunciar às suas novas convicções. Wright, contudo, vai mais longe, sugerindo não só que a ressurreição é uma hipótese suficiente, mas também necessária. O que ele quer dizer é que nenhuma hipótese alternativa pode explicar os fatos indicados, com alguma coisa que se aproxima do mesmo grau de aceitação. Como os céticos têm promovido teorias alternativas pelo espaço de dois mil anos, esta é verdadeiramente uma reivindicação. Por isso, vamos brevemente rever algumas dessas teorias alternativas.

A mais popular delas, talvez, a partir do Iluminismo, é que a ressurreição não passa de um mito que os discípulos inventaram. “O mito da ressurreição”, escreve Corliss Lamont em A Ilusão da Imortalidade, “é exatamente o tipo de fábula que se espera ver surgir numa sociedade primitiva e pré-científica como a dos antigos hebreus”. Os discípulos acreditavam que seu líder retornaria, e por isso forjaram a estória, segundo a qual eles o viram depois de sua morte.

Embora seja este o parecer, talvez o mais amplamente defendido hoje pelos céticos, ele é na realidade o intento mais fraco para se entender os fatos. Primeiro, como Wright mostra, a ideia que os mortos não voltam a viver não é uma descoberta do Iluminismo. Os hebreus antigos sabiam disso tão bem quanto nós. Segundo, os judeus seguidores de Cristo não esperavam que ele voltasse à vida. Acreditavam na sua ressurreição corpórea, mas isto um pouco antes do fim do mundo. Os discípulos ficaram embasbacados quando viram o Cristo em carne e osso, e alguns até se recusaram a acreditar nisto. Terceiro, uma coisa é inventar uma estória e outra bem diferente é estar disposto a aguentar perseguições e mesmo a morte para sustentá-la. Por que estariam os discípulos prontos a morrer por alguma coisa, se sabiam que tudo não passava de mentira?

Uma segunda teoria era que os discípulos roubaram o corpo. Esta teoria vem de muito longe; na realidade, foi propagada pelos judeus opositores de Cristo, para responder ao fato de o sepulcro estar vazio. As polêmicas judias contra o cristianismo por dois séculos continuaram a dar ênfase a esse tema. A teoria, no entanto esbarra em vários obstáculos. O sepulcro de Cristo estava fechado por uma pedra e protegido por soldados romanos. Como poderiam os discípulos passar sem serem flagrados pelos guardas? Ainda mais: se os discípulos tivessem roubado o corpo, saberiam que de fato Cristo não tinha ressuscitado.

Voltemos ao problema da teoria anterior: por que o choro dos discípulos se converte em alegria? Por que, depois de tantas ameaças, ainda se largaram mundo afora em campanhas de conversão? Por que se recusariam a retratar suas crenças diante de dores mortais?

O que realmente requer uma explicação aqui não é como os discípulos teriam roubado o corpo, mas por que os críticos de Cristo procuram tenazmente uma explicação tão improvável. A resposta parece óbvia: eles tinham que responder ao fato de o sepulcro estar vazio. O túmulo vazio é significativo, pois todos sabemos que os seguidores de Cristo passaram a proclamar a ressurreição dele em Jerusalém quase imediatamente após sua morte. Se eles estivessem simplesmente inventando isto, seria fácil desmentir suas afirmações, produzindo o corpo de Cristo. Mas isto não aconteceu e a explicação óbvia é que nem judeus nem romanos podiam fazer isto.

Uma terceira teoria sustenta que Cristo, na realidade não morreu, mas estava apenas num tipo de desmaio ou transe. No túmulo teria revivido e forjado sua saída, para depois se apresentar diante dos discípulos. Tal teoria, porém, esbarra em dois sérios problemas. Para os que tomaram parte na crucificação, dá-se a entender que os soldados romanos não sabiam como se matava gente. Tipicamente, crucificação significa morte por asfixia, e se os soldados romanos não estivessem certos de que a vítima estava morta, lhe quebrariam as pernas. Se as pernas de Cristo não foram quebradas, foi porque sabiam que ele estava morto. Por esta razão a ideia de Cristo reviver no túmulo é forçada e artificial.

Mas até mesmo se revivesse, estaria semiconsciente, à beira da morte. Imaginem um homem em tal condição rolando ele mesmo a pedra, iludindo os guardas e, depois, apresentando-se aos seus seguidores. Sua esperada reação seria: levemos este homem a um médico! Mas não foi o que aconteceu. Os discípulos, desolados com a morte de Cristo, não afirmaram ter visto um homem ferido, meio desmaiado; mas sim um homem que triunfou sobre a morte e estava completamente vivo e saudável. Por causa de semelhante incongruência em relação à evidência histórica, até o historiador David Strauss, um cético famoso da ressurreição, rejeita a teoria do desmaio.

Temos finalmente a hipótese de os discípulos estarem alucinando. Encontramos este ponto de vista defendido no livro de Gerd Ludemann A Ressurreição de Jesus, e também no de John Dominic Crossan, Marcus Borg e o Jesus Seminar. Ludemann diz que da mesma forma como hoje certa gente afirma ter “visões” da Virgem Maria, os discípulos então tiveram “visões” de um Cristo ressuscitado. De acordo com Ludemann, tais visões provaram ser contagiosas e “conduziram a mais visões” e, eventualmente, quase todos diziam ter tido visões de Jesus. A teoria das alucinações obteve credibilidade em anos recentes com o aparecimento de um número substancial de pessoas que afirmaram ter visto UFOs, ou então Elvis Presley depois da morte, por ter retornado a viver.

O grande problema com a hipótese das alucinações, porém, é que são quase sempre privadas. Exceto em casos extremamente raros, mais de uma pessoa não tem a mesma alucinação. Se dez delas contam ter visto algo muito inverossímil, não é convincente dizer que elas estão simplesmente sonhando ou imaginando coisas, porque então se deveria prestar contas do porquê elas todas estariam tendo o mesmo sonho ou imaginando a mesma coisa. O historiador Gary Habermas nos pede para visualizarmos um grupo de pessoas cujo navio afundou e gente flutuando no mar em uma jangada. De repente um deles, apontando para o horizonte fala: “Eu vejo um navio”. Por que não? Ele pode estar alucinando, mas nesse caso, ninguém mais vai ver o mesmo navio. Agora, se os outros na balsa também o enxergam, é hora de todos começarem a chamar por socorro, porque aí realmente está um navio.

Aplique esse raciocínio às visões do Elvis e é óbvio que se várias pessoas disserem que viram Elvis em Las Vegas, elas, muito provavelmente não inventaram isto. Possivelmente viram um dos muitos apresentadores que regularmente se exibe nos clubes noturnos e cassinos. Da mesma forma, quando as pessoas reportam ter visto um UFO, com muita probabilidade não estão alucinadas; melhor, elas realmente viram algo no firmamento, sem saber o que era. Na maioria dos casos, não se trata de alucinação, mas de uma identificação errada.

Agora, Cristo – relata-se – apareceu muitas vezes aos discípulos. Paulo observa que numa ocasião ele se mostrou a mais de 500 pessoas. Muitas delas estavam ainda vivas e em situação de questionar a veracidade do relato de Paulo. Tiago, que era um cético a respeito do ministério de Cristo, reporta-se que ficou persuadido de ser Cristo o Messias só depois de ver seu corpo ressuscitado. Da mesma forma o apóstolo Tomé, o famoso incrédulo, convenceu-se da ressurreição só depois de tocar as chagas de Jesus. O próprio Paulo, conforme suas palavras, era um perseguidor dos cristãos, até que Cristo lhe apareceu no caminho a Damasco. Nunca na história, tantos indivíduos diferentes, das mais diversas culturas e em ocasiões distintas, relataram a mesma alucinação. Alucinações não servem de resposta diante de um túmulo vazio; por outro lado, judeus e romanos, não poderiam resolver toda essa controvérsia produzindo o corpo de Jesus?

A conclusão digna de nota é que, apesar de todo o seu aspecto de sofisticação, nenhuma das teorias alternativas provê, nem de longe, uma resposta satisfatória para os dados históricos por nós examinados. A hipótese da ressurreição, apesar de fantástica em sua aparência inicial, ao ser examinada, apresenta a melhor explicação possível. Aqui não existe tentativa de provar definitivamente a ressurreição. Uma das descobertas que mais chama a atenção na pesquisa histórica é o quão pouco se conhece com certeza o passado. O que estou procurando mostrar é que a ressurreição não pode ser, cavalheirescamente, qualificada como um mito religioso. Pelo contrário, fundamentado em critérios científicos uniformemente aplicados à ressurreição, sobrevive ao escrutínio e merece ser considerada como um acontecimento histórico.


Fonte: Dinesh D'Souza