A Tirania do Relativismo



(Pe. Tadeusz Pacholczyk, Ph.D.,da diocese de Fall River, Mass. É diretor de Educação, no The National Catholic Bioethics Center in Philadelphia).

De uma feita perguntei a um médico recém-formado se, por acaso, havia recebido algum treinamento na área de ética médica, durante seus estudos. Minha preocupação era saber se de fato fora ensinado a lidar com certas questões morais que poderiam surgir na prática da medicina. Revelou-me que só havia participado de uma classe ética durante seus 4 anos de estudos e que essa classe parecia meio alienada, não tinha orientação firme, e estava aberta a opiniões. Contou-me que na primeira parte de cada aula, os alunos ouviam casos de medicina sobre os quais poderiam fazer surgir questões éticas. Na segunda parte, eles tinham oportunidade de expor seus sentimentos sobre as posições éticas em cada um dos casos apresentados. O curso servia para divulgar as diferentes opiniões, mesmo sem os alunos terem tido qualquer orientação ética anteriormente. A experiência dele me fez lembrar o quanto estamos prontos a discutir problemas éticos, mas damos um passo atrás para evitar falar nas verdades éticas. Nós levantamos perguntas éticas mas evitamos respostas. Encorajamos debates de opiniões e opções, mas deixamos os estudantes às escuras sobre o que pode ou não ser ético.

Esse relativismo turva a claridade do pensamento ético. Formar nossa própria moralidade ao longo da vida tem certa atração, naturalmente, pois assim podemos circunavegar algumas respostas éticas muito difíceis e que podem exigir mudanças em nosso comportamento ou perspectiva. Como um "bioethicist" colocou, anos atrás: “A gente quer saber o que seria certo e sábio fazer, mas sem o compromisso de ter que abraçar uma verdade tão lúcida que os obrigue a seguir sua luz”.

Essa “tirania do relativismo” influencia muitos dos debates éticos da atualidade. Os que pregam o aborto, por exemplo, dirão: "Se você pensa que aborto é errado, não o pratique"

A mensagem por trás desse soundbite é que o aborto pode ser ok para mim, mesmo sendo um problema para outro; que pode ser certo para mim e errado para você, e acha-se que podemos seguir vivendo normalmente. Este tipo de esquizofrenia é inadequada. Imagine alguém dizendo: "Se você acha que escravidão é errado, não tenha escravos, e pronto." Verdadeiras posses ou haveres humanos estão em jogo quando fazemos julgamentos morais e tomamos decisões éticas – no caso de escravidão, uma vida humana é oprimida; no caso de aborto, uma vida humana é exterminada.

Tais decisões éticas (ou não-éticas) não só afetam profundamente a outros, mas também nos afetam intimamente, transformando-nos naqueles que oprimem ou matam. Noutras palavras, as escolhas humanas acabam afetando o próprio mundo. Elas repercutem também nas profundezas da alma, no santuário íntimo da nossa pessoa.

Um santo do passado disse que a gente se recria através das próprias ações. Quando nos decidimos livremente por uma ação, nos “criamos”, e exibimos a direção pela qual o nosso coração está querendo ir. Neste mundo onde há o bom e o ruim, nada é mais importante para o bem de todos que a excelência das ações que manifestam o âmago ético de nossas vidas.

Esse âmago não pode enraizar-se nas areias movediças e incertas do relativismo moral; para isso precisamos de postes imovíveis de absolutos morais. Ninguém vive sem "os absolutos" de uma ou outra forma para orientar-se na hora de tomar decisões. Mesmo os que promovem o relativismo e a “liberdade de escolha” em relação ao aborto, logo reagem com indignação moral se alguém sugere que deve haver liberdade de escolha quanto à tortura de filhotes de animais ou ao estrago do meio ambiente. Suas “causas” favoritas acabam sendo dispensadas da afirmação que toda moralidade e relativa. Na verdade, eles não são relativistas, mas absolutistas: insistirão que é absolutamente correto proteger os animais contra a nossa crueldade, proteger o meio ambiente etc. O absolutismo deles pode acabar sendo tão firme ou rígido como o absolutismo dos que discordam, assim como o dos que defendem o direito dos não nascidos, dos idosos e dos deficientes.

Todos nós intimamente reconhecemos a importância de absolutos morais: certos tipos de decisões humanas são realmente errados, e a ética não pode trocar o que é, só porque eu quero que ela seja assim. Cada um deve resistir a tentação de ceder à tirania do relativismo, uma tirania que nos encoraja a adotar julgamentos morais que nos são convenientes, em lugar de julgamentos que são corretos.


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