Como era San Giovanni Rotondo quando Padre Pio lá chegou?



Sou capelão na Casa Alívio do Sofrimento há uns três anos; entre outras coisas, descobri que sou o único capelão nascido em San Giovanni Rotondo, desde a fundação da Casa. Meu relacionamento com Padre Pio e a Casa está intimamente ligado àquele do meu pai: Giovanni Savino. Quando Padre Pio chegou a San Giovanni Rotondo, proveniente de Foggia, a cidadezinha contava com apenas uns dez mil habitantes; as famílias eram numerosas e suas casas, em geral, pequenas – algumas de um só quarto – com lugar para o burrinho e as galinhas numa peça anexa. A higiene era muito precária e a mortalidade infantil elevada. Vivia-se com os olhos voltados ao amanhã. Os habitantes estavam todos empilhados ao redor do centro histórico, deixando, quase por respeito, o convento dos capuchinhos, um dos mais velhos da Província religiosa e da Ordem, a uma distância apropriada – cerca de dois quilômetros – para que o recolhimento e o silêncio dos frades não fossem facilmente interrompidos. Contudo mantinham certa ligação com o convento por um sendeiro, mais conhecido como um caminho para mulas. Com a chegada do Padre Pio, San Giovanni Rotondo, aos poucos foi transformando-se... (continua em: www.saopio.com.br )

A presença do Padre Pio não passou despercebida:

A presença do Padre Pio – um fradinho macilento mas de uma estatura moral agigantada – naquele eremitério, agarrado no Monte Castellana, improdutivo e quase selvagem, mas com ar fino e saudável, apropriado para curar sua instável saúde, foi logo notada por certas pessoas que, além de gozarem de sua direção espiritual, acabaram ficando também seus “filhos espirituais”.

Muitos outros, contudo, insensíveis aos convites do Espírito, ignoravam essa presença; talvez, por estarem muito ocupados ou, quem sabe, por medo de se converterem, o que implicava uma boa confissão para poder gozar da misericórdia de Deus ou, simplesmente, por pura distração.

Entre estes “distraídos” estava também meu pai, que atarefado de mais com o cultivo das terras e o trabalho de rachar lenha para poder cozinhar o “pão de cada dia” reclamado pela família, não se tinha dado conta da presença desse homem de Deus.

Aproveitando um dos raros momentos de descanso que a vida dura dos campos lhe presenteava, um dia, com um amigo, decidiu fazer uma caminhada. Aonde ir? Dentre as várias propostas escolheram ir para cima, em direção do eremitério perdido na solidão. Haverá vida por aquelas regiões? Passo a passo, acabaram chegando exatamente na hora das “funções eucarísticas”. Rodeado de devotos com os olhos fixos na Hóstia branca, Padre Pio recitava as últimas palavras da súplica de S. Alfonso M. De Liguori à Beata Virgem Maria: Não me deixe até que não esteja já salvo no céu para abençoar e cantar as tuas misericórdias por toda a eternidade. Assim espero e que assim seja”.


Meu pai sentiu que alguma coisa estava mudando sua vida.

O padre disse essas últimas palavras com um nó na garganta como quem não podia continuar. Esse nó na garganta contagiou também a meu pai, tanto que não o conseguia engolir. Comoveu-se profundamente e se sentia mal (quase culpado) pensando que fora só por acaso que descobrira o paraíso na terra! Enquanto caminhavam de regresso à cidadezinha, pouco conseguiu comentar com o amigo; um enxame de idéias desequilibrara seus pensamentos. Percebeu que algo havia sucedido e que sua vida estava prestes a mudar.

Passado mais um tempinho, a terra ingrata concedeu a meu pai e ao amigo mais uma oportunidade para tomarem outro passeio. Aonde se vai hoje? “Ao convento”, foi a resposta pronta do pai. Já estivemos lá, respondeu o amigo. “Mas não foi suficiente”, insistiu meu pai. Eu não pretendo voltar ao eremitério, disse resolutamente o amigo que, possivelmente, tinha medo de ser contagiado pelo Espírito. “E eu não pretendo abandonar meu plano”, replicou, ainda mais decidido, meu pai. Cada um tomou seu caminho! Meu pai seguiu sua inspiração... E daquele dia em diante, lá voltava todos os dias, até sem a licença da terra ingrata.

Mais passava o tempo e mais o eremitério se tornava um ponto de atração para meu pai. A imagem sacerdotal, sofredora e ao mesmo tempo tranquilizadora do Padre Pio, fascinava-o cada vez mais. ‘Espiava’ com atenção todos os seus gestos; imprimia na mente cada uma de suas palavras, que aos poucos se convertiam em norma de vida; desejava permanecer a seu lado o mais que pudesse. Favorecido com tempos melhores, consegue satisfazer, em parte, o ardente desejo de viver como que em simbiose com o Padre Pio.

A horta, naquele lugar onde estava encravado o antigo convento, aos olhos do pai, um verdadeiro perito, precisava de mais atenção; ofereceu-se, então, a prestar gratuitamente seus serviços, em sinal de reconhecimento ao grande Padre que lhe tinha mudado a vida.


Levantava-se sempre bem cedo para ir à Missa do Padre Pio

Tudo isso acontecia aí pelos anos de 1945, imediatamente depois da guerra, quando o pão era escasso e os filhinhos não só enchiam as casas mas também alegravam os caminhos com seus joviais alaridos. Em nossa casa já havia duas: Maria e Madalena. A primeira, Maria, já havia voado ao céu na idade de um ano devido a uma simples dor de dentes. Meu pai, por ter oferecido seu trabalho ao convento, levantava-se muito antes do sol; participava na Missa do Padre Pio, depois, por duas horas, trabalhava na horta do convento e, por último, na própria terra, o quanto fosse preciso para fazê-la produzir o necessário para minha mãe e minhas irmãzinhas.

Ele sofria uma atração sempre maior pelo modo como o Padre Pio celebrava a santa Missa. A antiga igrejinha reunia estreitamente os devotos como uma choca faz com seus pintinhos, e meu pai, aí no presbitério, tinha a possibilidade de ficar bem perto do altar e assim ver com que intensidade o Padre Pio se fixava na Hóstia branca e de observar quantas vezes suas mãos sangravam na hora da elevação. Contudo, não se sentia ainda satisfeito. Desejava aproximar-se ainda mais; chegou à conclusão que precisava servir-lhe a santa Missa como os outros faziam.


Pergunta ao Padre Pio se podia ajudar-lhe a Missa.

Um dia, conseguiu manifestar-lhe esse desejo; mas Padre Pio teve dúvidas, porque para meu pai com um “diploma” de apenas a segunda série (do primeiro grau) teria sido muito complicado apreender todas as resposta em latim. Como todos se lembram, antes do Concilio, o celebrante, de costas aos fiéis, “dialogava” somente com o coroinha e em latim.

O pai não desanimou e começou a “mastigar” diariamente as várias respostas na língua da Roma antiga, entre elas algumas bastante compridas como o “Confiteor”. Chegou o dia no qual finalmente se sentiu com coragem e tentou o debute. Encontrar-se ao lado do Padre Pio para ele significava estar ao lado do próprio Jesus para o qual ele servia a Missa com todo o fervor possível.

Ao Padre Pio nada passava desapercebido e durante o almoço comentou aos frades: “Não podeis imaginar como me agradou hoje a santa Missa” “Qual foi o motivo de tanto prazer, Padre?” “Pela maneira como o nosso Giovannino ma serviu”. Daí por diante, meu pai ficou conhecido como Giovannino tanto para o Padre Pio como para todos os frades.

Servir a Missa ao Padre Pio era o desejo de todos e para evitar o amontoamento foi necessário instaurar turnos. Daí por diante, para servir a Missa ao Frei dos Estigmas era necessário inscrever-se na lista. Esta prática não era exigida, contudo, para se poder participar da celebração, o que era quase como servir, sobretudo para os homens, que costumavam encher o apertado presbitério, ao lado do altar.

Para muitos, nessas alturas, iniciar o dia com a Missa do Padre Pio se tornara algo indispensável, não importava o horário proibitivo – às quatro da manhã – hora implacável com frequência, por causa da chuva ou da neve. Diversas pessoas esperavam o momento de abrir a porta da igreja, rezando de joelhos, para assim tornar o sacrifício ainda mais meritório ou, bem possível, para conseguir um dos primeiros lugares.

Uma manhã de inverno, como de costume, meu pai se acordou às três da manhã, para participar da santa Missa e depois ficar algumas horas trabalhando na horta. Estava já pronto para sair, quando se deu conta, ao abrir o orifício de observação, que estava todo coberto de neve. Determinou, com um cálculo rápido, que era de meio metro, sobretudo onde fora acumulada pelo vento.

Era impossível aventurar-se, também porque a iluminação era quase inexistente e a estrada pouco ou nada mais que um trilho de mulas. Meu pai não desanimou, equipado da melhor forma possível, encaminhou-se teimosamente orientado por seu pólo de atração.


Padre Pio atrasou a Missa até que meu pai chegasse.

As quatro já haviam soado. Os fiéis, mais teimosos ainda que meu pai, enchiam os bancos; os coroinhas do turno estavam prontos. Padre Pio, com os paramentos sacros postos, estava profundamente absorto. Alguém lhe indicou: “Padre, as quatro já soaram!”. “Devemos esperar” foi a resposta incomum do Padre, que era sempre pontual. Depois de um quarto de hora: “Mas Padre, a quem esperamos?” “O coroinha!”. “Eles já estão aqui prontos”. “Acabo de dizer que estou esperando pelo coroinha”, respondeu num tom como de quem não aceita mais perguntas. Depois de meia hora aparece o coroinha esperado, sem fôlego e forrado de neve; coitado, tinha percorrido quase dois quilômetros baixo as intempéries do tempo e carregado com a preocupação de que podia chegar tarde para a celebração e, assim, começar mal o novo dia. Com a fronte vermelha, rocha de frio, sente-se alvo de todos os olhares, com exceção daquele do seu caro Padre, que o olha filialmente satisfeito e declara: “O coroinha hoje é Giovannino”. Era desse jeito que o Padre Espiritual sabia recompensar a seus filhos. (Pe. Francesco Savino).


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