Amiga Morte



Morte amiga... desde quando?... perguntarão. Não é ela, ao contrário, a nossa inimiga mais apavorante? E existe pior notícia que comunicar a alguém que um seu familiar, um seu amigo, foi visitado pela morte? Do ponto de vista humano, é isto mesmo. Não é fácil encarar de frente o rosto gélido da morte. Daqui porque, automaticamente, procuramos ignorá-la, pensar nela o menos possível, deixá-la de lado em nossas conversas, como um assunto inconveniente e até constrangedor.

Mas por que isto? Por que tamanho espanto diante dela? Sem dúvida, a morte – e esta reflexão vem bem a calhar no mês em que somos convidados a centrar nossa atenção sobre ela, a lembrar nossos mortos – continua sendo um inimigo assustador sim, porém, um inimigo vencido, fragorosamente derrotado por Cristo. Com sua ressurreição, o espectro assustador transformou-se numa porta luminosa para uma felicidade sem fim no céu.

O problema é que, em nosso corre-corre diário, facilmente esquecemos isto. Sem nos darmos conta, fomos perdendo o sentido da morte. E, em conseqüência, também o sentido da vida como a mais estupenda expressão do belo. Em conseqüência, a vida tende a reduzir-se a um mero fenômeno químico-físico, em cuja defesa não vale a pena se preocupar tanto.

E assim foi que surgiu e se implantou a cultura da morte. Da morte sem qualquer perspectiva sobrenatural, como um simples apagar-se. É a cultura que em nossos dias propõe o aborto, a pílula do dia seguinte, o descaso pelos milhões de seres humanos que morrem por falta de alimentação, de cuidados médicos, de amparo... Para livrar-se dos compromissos que acarreta o nascimento de um bebê, a sua criação, tudo se torna horrivelmente lícito, desde que não atrapalhe o nosso conforto, o nosso bem-estar.

Com o sentido da vida perdeu-se também o sentido redentivo do sofrimento que vem associado à vida e à morte. Sofrer para quê? – pergunta-se. Vale é aproveitar a vida, divertir-se. Mas se esquece que a redenção iniciada por Cristo se fez e continua a fazer-se no sofrimento, e ela precisa prosseguir até o fim dos tempos. E cada um é chamado a participar, unindo seus sofrimentos, suas doenças, os contratempos que a vida acarreta, e a própria morte, aos sofrimentos e à morte do Salvador.

Esta era a visão dos santos a respeito da morte, uma visão bem amigável, tanto que São Francisco de Assis não achava demais chamá-la de irmã, “irmã-morte”. E o Padre Pio, com o mesmo espírito de seu pai-fundador, a reconhecia como “amiga” pela qual experimentava uma atração especial e que viria a ocupar um lugar importante em sua espiritualidade. Quanto suspirava por ela, não para livrar-se do permanente estado de angústia, depauperamento e sofrimentos físicos, e sim por um motivo mais profundo: para unir-se definitivamente ao Amado no céu. “Desejo a morte – escrevia – apenas para me unir com laços indissolúveis ao celeste Esposo”. E ao diretor espiritual Benedito: “Para mim não existe mais conforto, enquanto o Divino Mestre não me chamar. Reze pela minha partida, não agüento mais”, de saudade, acrescentaríamos nós. Coisa aparecida revela ao confessor: “Aquelas suas palavras: ‘parece que o fim do seu exílio terreno está próximo’ me fizeram sair fora de mim, tamanha a minha felicidade”.

Conjuntamente com o fascínio da morte, porém, sente que tem uma missão a cumprir: ajudar Jesus a levar adiante a redenção da humanidade, trabalhando por ela como confessor de multidões, como uma representação viva do Crucificado no meio dos homens, como um prolongamento da sua paixão e morte redentoras. E para cumprir sua missão, precisa estar vivo na terra, precisa amargar a saudade do seu Amado, aguardar a chegada de sua “amiga”, tão ardentemente esperada.


Fonte: Olivo Cesca