História de Daniela Zanetta



Faz algum sentido o sofrimento? E, depois, de onde tirar a força para aceitar a dor, a doença, principalmente quando incurável? Nos últimos anos, tem-se intensificado o debate sobre questionamentos relacionados com o fim da vida: eutanásia, teima terapêutica, testamento biológico... São temas, não resta dúvida, que merecem uma reflexão humilde, serena, minuciosa. Contudo, eles continuam aparecendo nas horas mais impróprias, resultando em confrontos que não levam a nada, pois só propõem velhas e estéreis divisões entre católicos e gente do mundo, quando não, entre os próprios cristãos de diferentes culturas.

Mas não é esta a nossa finalidade ao apresentarmos aqui a história de Daniela, que viveu praticamente na cruz até os 23 anos de idade.

Daniela Zanetta nasceu à meia-noite de 15 de dezembro de 1961, em Borgomanero, provícnia de Novara (Itália). Filha de Carlos e Lúcia, casados havia apenas nove meses. Enamorados e felizes, trabalhavam, ele como garçom num bar, ela num supermercado perto de casa. A alegria pela chegada da primeira filha, porém, foi dramaticamente quebrada ao descobrirem uma séria anomalia em sua perna esquerda: uma pequena cavidade sem carne num dos joelhos. Foi internada imediatamente, pois, segundo os médicos, tratava-se de uma doença grave e muito rara: epidermolise bollosa (EBO). Pobres pais, os médicos não davam a menor esperança. Por causa da EBO, o mau funcionamento das fibras que mantêm unidas as várias camadas da pele provoca a formação de um líquido, depois bolhas e, por fim, feridas. Em toda a Itália, sabia-se até então de seis casos apenas. E não se dispunha ainda de tratamentos eficazes.

Na noite de Natal, a pequena consegue mamar pela primeira vez. UM importante passo para continuar vivendo. Nesta mesma hora os pais fazem sua opção definitiva: aceitá-la e amá-la, independente do que pudesse ou não acontecer. Quando ela nasceu – lembra a mãe – foi para nós um momento extremamente difícil; pouco se sabia ainda sobre a doença, e por isto no hospital nos puseram em quarentena. Pensavam tratar-se de uma doença contagiosa. Quando me levaram para o isolamento, meu marido me abraçou com o maior afeto, recomendando-me: não deixe que ela morra. Diante desta incumbência que me dava de salvar-lhe a vida, algo quase impossível aos olhos humanos, acabei aceitando a missão com um grande sim: ‘se ela deve morrer, aceito morrer com ela; e salvando-me eu, que se salve ela também’. Durante os quarenta dias passados naquele quartinho, minha melhor companhia era o crucifixo. Aos que ainda não alcançaram a fé ou preferem não aceitá-la, peço que me desculpem, mas nós fomos educados num ambiente de fé. Na longa presença do crucifixo, a minha fé cresceu o bastante para lhe perguntar: ‘Por que deve uma criancinha inocente sofrer deste jeito? E por que isto veio a acontecer justamente a nós?’ Sua resposta não demorou. Em meu coração ouvi o Crucificado me dizer: ‘Olhe para mim! Em vida só fiz o bem, no entanto, acabei pregado numa cruz. Eu também sou inocente, mas foi desta forma que o Pai me amou, e esta maneira de amar é para todos e cada um’. Com esta lição de vida concluí que para prosseguir em meu caminho eu devia pôr em prática também estas outras palavras de Jesus: ‘Quem quiser vir após mim, tome sua cruz e siga-me’. Só então, seguindo as pegadas de Jesus, pude cumprir tão árdua tarefa”.

A doença era invencível, o destino de Daniela estava selado, mas tudo isto não era castigo ou desgraça, pois o sofrimento pode gerar vida. Fortemente unidos a Daniela e assistidos pelo amor de Deus, a experiência da doença mudou de figura. Não é mais a mesma. A família passa a viver com esta nova perspectiva: nem sempre se pode evitar o sofrimento, mas Deus o partilha conosco e nos acompanha com seu amor e com o amor das pessoas que coloca ao nosso lado. Ao mesmo tempo, não se exclui a possibilidade de salvar Daniela, para aprender o mais possível sobre sua doença, e assim estar prontos para enfrentar sua situação. Tudo agora faz parte daquela escola de espiritualidade que vai acontecendo, dia após dia, com a filha.

No passar dos meses e dos anos, as bolhas se transformam em chagas, que se alastram pelo corpo. Boa parte do dia se vai nos curativos, que são feitos em casa, sempre que não se encontra baixada no hospital. Daniela cresce infundindo muita força e espiritualidade em todos os que vivem ao seu redor. Alegra-se quando uma ferida cicatriza, mesmo sabendo que outra irá tomar-lhe o lugar. Nunca desespera, sua paciência é realmente incrível. Os pais nada lhe escondem, pois acreditam que sua vontade e sua colaboração ativa podem ser decisivas para qualquer progresso.

O tempo passa, e Daniela começa a freqüentar a escola primária, depois a secundária, por fim a superior, e consegue receber o diploma. O caminho escolar prossegue com tenacidade, sem privilégios por parte dos professores, por causa da sua situação excepcional. Desta maneira, a menina, que nunca renuncia a seus sonhos, adquire nova consciência do significado de sua passagem por este mundo, compreende que, com seus sofrimentos, tem uma especial missão a cumprir.

Participa nas atividades da paróquia, dá catecismo às crianças, entra num grupo Gen, do Movimento dos Focolares, procura ajudar a todos os que encontra, começando pelos hóspedes de sua nova casa em Maggiora, na companhia dos pais e dos irmãos Manuel e Fabrício. Uma casa realmente “aberta” para acolher jovens com dificuldades, que se perderam nas drogas ou que não têm família, inclusive os que chegam da África. Enquanto ela vive sob o peso de uma doença que não lhe dá trégua, de repetidas internações no hospital, vai compreendendo mais e mais que a doença pode ser um incentivo para amar, não um obstáculo à prática do bem. Assim, oferecendo seu sofrimento, descobre o sentido da vida. Seus sofrimentos, imersos no amor, como que imunizados por seus atos cotidianos de amor, acabam revelando-se a chave da felicidade. Um paradoxo? Ou uma perspectiva sensata para nós também? Sejamos bem claros. As vozes de Daniela não são nunca um hino ao “dolorismo”, ao “vitimismo”, mas exatamente o contrário. Cada momento é para ela uma batalha consigo mesma para superar-se diante das limitações impostas pela doença, uma luta a ser vencida contra ela. E nessa tensão sente-se cada vez mais unida ao seu “amigo maravilhoso”, Jesus, a ponto de sonhar tornar-se sua esposa. A ele escreve muitas cartas, que serão recolhidas e publicadas depois da morte, ocorrida em 14 de abril de 1985. É o famoso “Diário”, que muitos jovens tanto desejaram poder ler algum dia. Foi dele que partiu o processo de beatificação, já concluído em nível diocesano, e agora já em Roma.

Os escritos não falam somente de sua fé, mas também do seu humano. Recordamos aqui o que escreveu Ítalo Calvino, depois de uma experiência no Cottolengo de Turim: O humano chega até onde chega o amor; não tem outros limites, além dos que lhe impomos... No “Diário” de Daniela podemos acompanhá-la dia a dia, momento a momento. Todo ele retrata um desígnio de amor que confere sentido até aos episódios mais corriqueiros de sua vida: Por favor, Jesus, escuta nossas humildes preces e protege-nos nesta noite, para que ao nascer do novo sol, estejamos prontos a te amar melhor do que hoje. Nele encontramos tudo o que Daniela sabia esconder atrás de seu sorriso. Até os detalhes mais cruéis relacionados com a doença, com as sombras que encontra na alma, com o cansaço provocado pela luta contra o mal que tenta aniquilá-la. Às vezes encontro feridas curadas, e então um aplauso de alegria sai do meu coração em direção a ti; outras vezes, por me encontrar feita uma chaga só, meu moral cai mais baixo que a sola dos sapatos. E existe ainda a batalha interior contra a tendência de encolher-se dentro de si, a tendência ao torpor e à poltronice; a de lamentar cada uma das pequenas ocasiões passadas sem amar, sem pôr Jesus em primeiro lugar, sem escolher fazer sua vontade. Descobre-se ainda no “Diário” a consciência de seu nada, e por isto suplica: Dá-me força, muita força, não me abandones jamais, porque sozinha não conseguirei sobreviver por uma fração de segundo sequer. Jesus é o seu confidente, o seu tudo. Querido Jesus..., ontem à noite, antes de pegar no sono, pensava no que poderia ter sido a minha vida sem esta doença. Que estranho. Mesmo desejando um corpo sadio, não conseguia imaginar-me numa existência “normal”. Compreendi então que a cruz tornou-se parte integrante, essencial da minha vida; ela é como um cordão umbilical que me liga a ti e da qual recebo nutrição, oxigênio, vida.

A constância desse relacionamento com Jesus aparece num outro trecho do “Diário”: Ontem, sábado, foi um dia muito especial. Sábado é o dia de limpeza geral; por isso, também de curativos mais precisos e demorados. Só pela manhã levei quatro horas, medicando o tronco e as pernas; depois do almoço, mais uma hora para as mãos e os pés. No fim dos curativos me sentia realmente cansada, mas tu provês tudo! Deste-me um irmão maravilhoso, o Fabrício, que me preparou uma boa taça de chá quente com biscoitos.

Mas Daniela nos ajuda a dar mais um passo. Não existe só o amor direcionado ao que sofre, mas também o amor do que sofre voltado para si mesmo e para os outros. Por isto é significativo o testemunho do grupo dos médicos que a acompanharam até o fim, na tentativa de salvá-la: Ela nos deixou um caminho seguro, que nos ajudará em nossa história como médicos e, por que não, como homens também.


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