Colapso da Catequese



Cada um tem suas histórias para contar, e que serviriam para ilustrar, com maior ou menor precisão, o grau de decadência a que chegou a nossa catequese católica. Poderíamos mencionar pessoas nossas conhecidas – jovens e outros não tão jovens – que assistiram a instruções religiosas por até doze anos, e hoje tudo o que lembram poderia ser escrito atrás de um dos nossos selos comuns. Ou então alguém que cursou o primeiro e o segundo graus nalguma escola católica, mas a sua ignorância em matéria religiosa é simplesmente assombrosa. (Lembro que no tempo em que lecionava numa universidade, um meu colega, que era judeu ortodoxo e professor de ciências políticas, teve de corrigir um aluno a respeito do que ele entendia por Imaculada Conceição. O aluno, que vinha de uma escola católica, 2º grau, acabou reconhecendo que o judeu estava certo).
Durante as mais de quatro décadas que se sucederam ao Concílio Vaticano II, presenciamos, na catequese católica, uma crise de proporções gigantescas, e a extensão das conseqüências por ela causadas ultrapassam qualquer exagero. A catequese – que é a transmissão da fé de uma geração para outra – constitui o verdadeiro âmago da educação católica. Por isto, quando aquela se deteriora, a própria educação católica em seu conjunto como que adoece e cambaleia. Desta forma, confusa e desorientada, começa a divagar, sem o sentido próprio de sua identidade. Por isto, no meu entender, o estado atual da nossa catequese representa o fracasso maior de toda a história da educação católica. A situação é realmente preocupante.

O título deste artigo fala em “colapso” da catequese. Este pode até não ser o modo mais correto de ilustrar o caso em discussão. Um colapso sugere algo que cai por causa de seu próprio peso, mas não foi isto, propriamente, que aconteceu com nossa catequese. Ela não desmoronou por si, ela foi atrevidamente destruída, dinamitada em mil pedacinhos e – o que mais entristece – por aqueles cuja responsabilidade era protegê-la e promovê-la. Temos aqui um exemplo característico do fenômeno “viver com o inimigo dentro da própria casa”.

Nossa suspeita natural em relação a conspirações pode levar-nos a esquecer que essas conspirações ainda existem, são reais. Temos um bom exemplo em nosso caso. Quem são os conspiradores que se encontram por trás dessa trama para destruir a catequese católica? Eles se encontram entre os membros daquilo que, segundo Monsenhor Michael J. Wrenn é conhecido como o “stablishment catequético”, palavra que significa o conjunto de grupos dominantes dentro de uma sociedade. Trata-se de uma leva audaciosa de “profissionais” e “peritos” – muitos deles dissidentes públicos da doutrina católica – que, encabeçando o movimento catequético, desde o início dos anos 60, conseguiu rapidamente pôr em ação “a nova catequese”. Essa não consistiu apenas num método novo de ensinar as verdades imutáveis da Fé católica, isto é, numa mudança na metodologia – e sim numa redução calculada e sistematizada das verdades da Fé – até na sua substituição por um currículo totalmente novo, que tinha mais a ver com o natural do que com o sobrenatural. Era um programa embalado cuidadosamente para comunicar aos jovens a sabedoria do mundo. Escrevendo sobre a nova catequese, Pe. Alfred McBride fez um relatório sobre a “confusão sem precedentes desse movimento catequético, tanto na matéria como na forma de ensinar a Fé”, e referiu-se à “gradual perda de interesse pelo conteúdo da Fé”. Pecados de omissão foram cometidos quando verdades de Fé simplesmente deixaram de ser ensinadas, e pecados de ação, quando essas verdades foram deliberadamente falsificadas. Mas a conspiração tramada pelo stablishment catequético foi diferente do modelo padrão, pelo fato de nada ter havido de clandestino. Foi levada a efeito de forma quase totalmente escancarada, à vista de todo mundo.

Ao longo deste período de solapamento sistemático da catequese tradicional não faltaram esforços periódicos da hierarquia para remediar a situação. Tais esforços, porém, eram cinicamente neutralizados pelo stablishment catequético ou simplesmente ignorados. Ele conseguiu estabelecer o que era, na realidade, uma instituição autônoma dentro da Igreja Católica, para promover, de acordo com um escritor, nada menos que idéias contrárias ao catolicismo. Outro problema relacionado com a falta de eficácia das intervenções hierárquicas se deveu ao fato de elas representarem tentativas demasiado titubeantes; motivo porque não tinham suficiente força para alcançar a necessária correção. Uma explicação do porquê os católicos em sua totalidade não se levantaram em armas contra os lobos vestidos de ovelha que estavam traindo sua Fé, foi que, pasmados e confusos pelas mudanças aceleradas que os atingiram logo depois do Concílio, não tinham consciência do que realmente ocorria. Por isto, muitos, simplesmente, hipotecaram sua confiança em pessoas que não mereciam a mínima.

O efeito mais devastador dessa crise foi assim descrito por Monsenhor M. J. Wrenn: “No espaço de poucos anos, a Fé de uma geração inteira – alguns falam duas gerações – acabou, desta maneira, gravemente comprometida”. Mais e mais a Igreja se ia constituindo de membros que, apesar de batizados e identificados como católicos, não sabiam realmente o que significava ser católico. Monsenhor Michael J. Wrenn, a quem já me referi duas vezes, escreveu o livro Catechisms and Controversies: Religious Education in the Postconciliar Years (Catecismos e Controvérsias: Educação Religiosa nos Anos Depois do Concílio – 1991), o qual eu recomendo muito. Altamente recomendado é também o livro que ele escreveu com Kenneth D. Whitehead, Flawed Expectations: The Reception of the Catechism of the Catholic Church (Esperanças Errôneas: A Aceitação do Catecismo da Igreja Catódica – 1996).

O quadro apresentado nos dois livros não é nada alentador e, como eu gostaria de poder dizer que ele está melhorando! Existem, certamente, sinais de esperança aqui e ali – a publicação do The Catechism of the Catholic Church (Catecismo da Igreja Católica) foi um passo na direção certa – mas enquanto estou escrevendo este artigo, ainda não vislumbro qualquer tentativa séria, ou um esforço agressivo e orquestrado para tirar-nos da lúgubre situação em que nos encontramos. Crises como essas não podem ser corrigidas com propostas de meios-termos ou temerosas. Se as coisas não melhorarem meio rapidamente, corremos o risco de termos que falar numa terceira geração praticamente perdida para a nossa Fé. Neste caso, o cenário estará pronto para uma resposta à inquietante pergunta de Cristo: “Mas o Filho do Homem, quando voltar, será que vai encontrar Fé sobre a terra?” (Lc 18,8).


Fonte: D.Q. McInerny, Ph. D. – Professor de Filosofia no Our Lady of Guadalupe Seninary.