Exposição dos restos mortais de São Pio



Entre entusiasmo e polêmicas, foram expostos em San Giovanni Rotondo os restos mortais de Padre Pio. Era 24 de abril do corrente. Em torno de 800.000 pessoas já se haviam inscrito para vê-los. Confusão, acusações de fanatismo, menosprezo da devoção popular. Lembrou-se o livro de Sérgio Luzzatto: “Padre Pio. Milagres e política na Itália do mil e novecentos”, no qual o santo capuchinho é qualificado como impostor, provocando intencionalmente seus estigmas.

As acusações de Luzzatto, depois de trombeteadas pela imprensa do mundo inteiro (lembrem o programa “Fantástico” da Rede Globo, de 6 de janeiro), foram desmontadas por dois italianos – Saverio Gaeta e Andrea Tornielli – num livro intitulado “Padre Pio, o último suspeito”.
Buscando compreender as razões em que se fundavam esses ataques e descobrir o porquê de tanta polêmica em torno de um dos santos mais invocados no mundo, a revista ZENIT entrevistou Andréa Tornielli, vaticanista de “Il Giornalle”, que realizou acuradas pesquisas sobre o episódio.

Como avalia a decisão de exumar e expor os restos mortais do Padre Pio?
Tornielli – Como se sabe, o reconhecimento canônico tem lugar antes da beatificação ou da canonização. Com o Padre Pio isto ainda não fora feito, visto que algumas escaras (=crostas das feridas), que se haviam desprendido das mãos durante sua última Missa tinham sido guardadas como relíquias, para serem enviadas ao Papa, quando o Padre Pio se encontrava ainda vivo. Essa exumação parece-me um procedimento “normal” e necessário. Quanto à exposição, nenhuma novidade. Existem muitíssimos corpos de santos, expostos. O Beato João XXIII jaz numa caixa de cristal, na basílica de São Pedro. Não me lembro de ter havido, por isto, críticas tão acirradas quando da sua exposição.

Por que então esta celeuma em relação ao Padre Pio? Seria acaso um protesto contra o santo, ou contra a Igreja e o povo, pelo fato de prestarem culto aos santos?
Tornielli – Deve-se, é claro, evitar qualquer fanatismo. A veneração de um santo e suas relíquias tem em vista fortalecer a fé naquele Jesus que o santo seguiu, e constatar como, através da fragilidade de pobres membros destinados a virar pó, passou a graça de Deus. Dito isto, no entanto, vejo muita jactância intelectual por parte de alguns que se sentem autorizados a julgar; por parte de certas “inteligências” que consideram a veneração aos santos, a devoção popular, etc. como expressões de uma fé infantil, ingênua, primitiva. Em resumo, alguma coisa a ser olhada de cima para baixo. Pena que tenham sido justamente essas fés simples e poderosas, através dos santuários, que se mantiveram também durante a intempérie pós-conciliar. Penso tratar-se de uma crítica ao povo que venera os santos.

O historiador Sérgio Luzzatto escreveu um livro para demonstrar que os estigmas do Padre Pio não passavam de um truque, e que o santo em questão era na verdade um falsário. Junto com Saverio Gaeta, o senhor escreveu o livro: “Padre Pio, o último suspeito”, para mostrar a inconsistência destas insinuações. Poderia explicar quais foram as questões mais relevantes?
Tornielli – Luzzatto levantou suspeitas sem ir ao fundo de nenhuma delas. Lançou a pedra e escondeu a mão. Leu parcialmente os documentos, cometeu disparates e erros grosseiros. Citou documentos dos quais se deduz que o Padre Pio teria pedido a um farmacêutico ácido fênico e veratrina, mas não explicou que, em outros documentos e testemunhos, aparece claríssimo o uso que devia fazer deles. O “historiador do século XXI”, como Luzzatto gosta de se definir, não achou importante folhear um manual de medicina da época: teria descoberto que aqueles ácidos, longe de provocar estigmas, eram cauterizantes.
No livro de Luzzatto, Padre Pio vem apresentado como um ícone do clérico-fascismo: uma tese que não só não foi demonstrada, mas é indemonstrável, pois baseia-se sobre o nada, e mesmo sobre um gravíssimo erro histórico, já que o “professor” não sabe ler os documentos e “esquece” de escrever que, durante os motins de San Giovanni Rotondo, em 1920, morreu um carabineiro, assassinado por manifestantes socialistas, e que esta morte foi o elemento desencadeador da dura repressão dos militantes. Em resumo, do ponto de vista histórico, a imaginosa apresentação de Luzzatto não tem como se manter, tantos são os furos que apresenta.

Afinal, que coisa há na santidade do Padre Pio e na proclamação da santidade dele, que não agrada a uma certa cultura moderna?
Tornielli – A certa cultura moderna não agrada a fisicidade, não agrada que se fale no bem e no mal, no paraíso e no inferno; não agradam pessoas capazes de atrair multidões, de levar muitas almas a Deus, de converter; não agrada ouvir falar do diabo como pessoa que age em nossa vida e na história; não agrada ver um homem simples, do povo, sem láureas nem ser colaborador da página cultural de algum jornal, sem títulos acadêmicos, ser capaz de mostrar tão claramente a beleza e o fascínio da experiência cristã, da vida de oração. Não lhe agrada a inversão que lemos no Magnificat: Deus “depôs do trono os poderosos e exaltou os humildes”.
Depois de tanto estudo sobre o Padre Pio, qual idéia lhe ficou do frade que passou grande parte da vida no confessionário, perdoando pecados?
Tornielli – Seu verdadeiro, seu grande milagre não foi a construção do hospital Casa Alívio do Sofrimento, nem foram as incontáveis graças que obteve de Deus para as pessoas que lhas pediam incessantemente. O seu verdadeiro, o seu grande milagre, foi ter passado a vida sofrendo, rezando e, sobretudo, atraindo almas a Deus,
Outro aspecto que muito me impressiona é o da obediência. Num mundo em que qualquer vidente, ou presumido vidente, facilmente se considera livre para fazer o que quer, ou desobedecer à autoridade da Igreja, Padre Pio ensina que o verdadeiro místico acata sempre a autoridade. Também nisto o frade de Pietrelcina é exemplo e modelo de santidade verdadeira.


Fonte: Revista Zenit