Tópicos da Vida do Padre Pio



Ele recebeu de Deus uma grandíssima missão.

Confesso que me surpreende o fato de encontrar, cada vez mais, pessoas que se dizem devotas de São Pio de Pietrelcina. Pessoas que pela primeira vez vêm a conhecê-lo sentem-se cativadas, simpatizam e já se tornam devotas, antes ainda dum conhecimento mais profundo da vida dele e dos muitos carismas com que fora agraciado por Deus; algumas até confirmam terem sido agraciadas de forma extraordinária. Isso vou constatando aos poucos desde que passei a prestar assistência religiosa na Ermida de São Pio no Cerro Comprido, Faxinal do Soturno/RS. Trata-se de pessoas simples, sensatas, e que demonstram devoção autêntica e não produzida por força de marketing, de propaganda exagerada, como às vezes pode acontecer. Qual é mesmo o segredo disso?
São Paulo Apóstolo afirma: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo... Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito a todos. A um o Espírito dá a mensagem da sabedoria, a outros a palavra da ciência...; a outro o Espírito dá a fé; a outro ainda o único e mesmo Espírito concede o dom das curas; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, o dom de falar em línguas; a outro ainda, o dom de as interpretar. Mas é o único e mesmo Espírito que isso tudo realiza, distribuindo a cada um seus dons, conforme lhe apraz” (1 Cor 12,4-11).

Cada pessoa é obra única de Deus, sem igual. Podemos ser parecidos uns com os outros, mas jamais perfeitamente iguais, porque Deus não se repete. Por certo, há bilhões e bilhões de santos no céu e cada qual exemplar único.
Deus distribui os seus dons conforme lhe apraz, livremente. E nós constatamos que a uns Deus constitui instrumentos especiais para atrair e arrastar multidões. Todos podemos constatar que existem santos que atraem as massas, que têm milhões de devotos, como um São Francisco, um Santo Antônio, uma Santa Teresinha do Menino Jesus, etc... Serão os de maior glória no céu? Não sabemos. Deus é quem livremente distribui seus dons de acordo com seus planos sapientíssimos.

São Pio de Pietrelcina (1887-1968) foi suscitado por Deus para ser um santo extraordinário para a nossa época, um santo que cativa à primeira vista e que leva à conversão multidões (já em sua vida mortal ele atraíra multidões e fora instrumento de conversão, especialmente pelo sacramento da reconciliação, pelo seu modo de celebrar a santa Missa, por sua vida de oração, pelo seu sofrimento). Desde sua infância, ele foi super-agraciado por Deus. Talvez seja difícil encontrar outro santo que, desde os primeiros anos de vida, apareça tão cumulado de dons por Deus.
É filho de Grazio Maria e de Maria Giuseppa di Nunzio Forgione, nascido em Pietrelcina (Benevento), no dia 25 de maio de 1887. Foi batizado no dia seguinte com o nome de Francisco. A sua infância, transcorrida serenamente num ambiente familiar cristão, não apresentava fatos notáveis (espalhafatosos), e ele era avesso a manifestar os dons que Deus lhe conferia. Contudo existiram alguns sinais indicativos de que Pietrelcina num primeiro momento e, mais tarde, San Giovanni Rotondo se tornariam famosas em razão da presença e do apostolado dele. Francisco tinha apenas cinco anos de idade quando, num impulso incomum para a sua idade, começou a acariciar a idéia de consagrar-se para sempre a Deus. Nessa mesma idade apareceram os primeiros dons carismáticos e os primeiros assaltos violentos de satanás: “Os êxtases e as aparições, afirma seu Diretor Espiritual Pe. Agostinho de San Marco in Lamis, começaram no quinto ano de idade, quando teve a idéia e o sentimento de consagrar-se para sempre ao Senhor, e foram contínuos. Interrogado porque os tivesse ocultado por tanto tempo (até 1915, quando já estava com 28 anos de idade), respondeu candidamente que não os havia manifestado, porque os acreditava coisas ordinárias que aconteceriam a todas as almas; na verdade, um dia ele disse ingenuamente: ‘E o Senhor não vê Nossa Senhora?’. A uma minha resposta negativa, acrescentou: ‘Isso o Senhor diz, por santa humildade!’. Aos cinco anos de idade começaram também as aparições diabólicas”.

Coroinha assíduo, Francisco “rezava sempre de joelhos e bem comportado”, e também a portas fechadas, de acordo com o sacristão (a quem pedia que o deixasse trancado na igreja, indicando-lhe a hora para abrir-lhe a porta). Dormia freqüentemente no chão, tendo por travesseiro uma pedra, e mortificava-se impondo-se penitências, inclusive flagelando-se com uma corrente (“pois Cristo fora flagelado”, desculpava-se com a mãe, que se angustiava por tais atitudes do filho).
Ele ingressou no convento capuchinho de Morcone no dia 06 de janeiro de 1903 (faltavam-lhe uns 3 meses para completar 16 anos).
Mas antes disso ele já tivera três importantes visões, que mais tarde, por ordem de seus Diretores espirituais, relatou por escrito, embora muito a contragosto (felizmente para nós, os Diretores espirituais às vezes forçavam-no a revelar os dons especiais que recebia de Deus).
Ele não indica a data da primeira visão, mas deve ter acontecido pouco antes das outras duas. A segunda aconteceu no dia 01/01/1903 e a terceira na noite do dia 05 de janeiro de 1903, véspera de sua entrada no convento.
Eis como ele próprio, com seu jeito, conta os fatos(realces meus):

“In nomine Jesu. Amen. (Em nome de Jesus. Amém)

Tudo o que narrarei neste meu pobre escrito, faço-o por imposição, em virtude da santa obediência. Com quanta repugnância eu o faça, somente Deus pode compreendê-lo perfeitamente. Somente Ele me é testemunha. E se Ele não tivesse fortalecido muito bem meu espírito sobre o respeito que se deve à autoridade, com certeza recusar-me-ia até à revolta; de forma alguma, induzir-me-iam a registrar por escrito o que estou por escrever, bem sabedor que sou da malícia desta alma favorecida por tão distintos favores do céu. Queira Deus assistir-me e fortificar o meu espírito para que possa sentir-me seguro, apesar da confusão em que me encontro, ao manifestar o que estarei narrando.
Primeiro chamado extraordinário feito a esta alma a fim de que abandonasse o mundo e o caminho da própria perdição para dedicar-se inteiramente ao serviço de Deus.
Desde os mais tenros anos, esta alma sentira fortemente a vocação para o estado religioso; mas com o correr dos anos, ai de mim, esta alma andava bebendo a largos tragos a vaidade deste mundo. A vocação que se fazia sentir forte nesta alma, por um lado, e, por outro lado, o doce e falso gosto deste mundo começam a lutar poderosamente entre si no coração desta pobrezinha, e - talvez e sem talvez - os sentidos, com o andar do tempo, teriam triunfado sobre o espírito e sufocado a boa semente do divino chamado. Mas o Senhor, que queria esta alma para si, dignou-se favorecê-la com esta visão.
Certo dia, enquanto estava meditando sobre a sua vocação e como decidir-se para dar um adeus ao mundo e dedicar-se inteiramente a Deus num sagrado recinto, foi repentinamente raptada nos sentidos e levada a fitar com o olho da inteligência objetos diferentes daqueles que se vêem com os olhos do corpo.
Deparou ao seu flanco um homem majestoso de rara beleza, brilhante como o sol. Este tomou-a pela mão e (a pobrezinha) ouviu dele: “Vem comigo, porque te convém combater qual valente guerreiro”. Conduziu-a a uma vastíssima esplanada. Aí havia uma grande multidão de homens divididos em dois grupos. Dum lado, homens de vulto belíssimo com vestes brancas, cândidas como a neve; - doutro lado, o segundo grupo, vultos de aspecto horrível, em vestes pretas como sombras escuras.

Entre estes dois grandes grupos de personagens havia um grande espaço e aí foi colocada esta alma pelo seu guia. Esta alma estava toda ocupada em admirar estes dois grupos de homens e eis que, de repente, avançou por aquele espaço, que dividia os dois grupos, um homem de enorme estatura, de tal forma a tocar com a fronte as nuvens. O vulto dele parecia o de um etíope, tão horrendo era.
À tal visão a pobre alma sentiu-se totalmente desconcertada, sentiu que a vida lhe era sustada. Aquele estranho personagem avançava sempre para mais perto de si; o seu guia ao flanco disse-lhe que com aquele indivíduo devia bater-se. A tais palavras a pobrezinha empalideceu, tremeu toda e estava a ponto de cair semimorta por terra, tão grande era o terror que havia experimentado.

O guia sustentou-a por um braço. Quando a pobrezinha se havia refeito um pouco do pavor, volta-se para o guia suplicando-lhe a não a expor à fúria daquele tão estranho personagem, porque, dizia-lhe, ser tão forte que não bastariam para vencê-lo sequer as forças de todos os homens juntos.
“Vã é toda a tua resistência; com este te convém engalfinhar-te. Toma coragem: entra confiante na luta, avança corajosamente que eu permanecerei ao teu lado; eu te ajudarei e não permitirei que ele te abata. Como prêmio da vitória que alcançarás, doar-te-ei uma esplêndida coroa, que te ornará a fronte.”
A pobrezinha toma ânimo; entra em combate com aquele formidável e misterioso personagem. O choque foi formidável, mas com a ajuda que lhe era oferecida pelo guia, que jamais se apartou dela, finalmente supera-o, abate-o, vence-o e obriga-o à fuga.

O guia, então, fiel à promessa, tira de debaixo de suas vestes uma coroa de raríssima beleza que seria inútil tentar descrevê-la e lha coloca na cabeça, mas imediatamente retira-a dizendo: “Uma outra mais linda tenho reservada para ti se souberes lutar bem contra aquele personagem com o qual combateste agora. Ele retornará sempre ao assalto para vingar a honra perdida; combate como valoroso e não duvides do meu auxílio. Mantém bem abertos os olhos, porque aquele personagem misterioso esforçar-se-á por agir contra ti de surpresa. Não te assuste a moléstia dele, não te amedronte a sua formidável presença, lembra-te do quanto te prometi: eu estarei sempre ao teu lado; ajudar-te-ei continuamente, a fim de sempre que possas prostrá-lo”.
Derrotado aquele misterioso homem, toda a grande multidão de homens de horrível aspecto se pôs em fuga entre urros, imprecações e gritos ensurdecedores; - enquanto dos peitos da outra multidão de homens de belíssimo aspecto brotavam vozes de aplausos e de louvores em direção àquele homem esplêndido e reluzente mais que o sol, que havia assistido tão esplendidamente a pobre alma naquela tão áspera batalha.
Assim acabou a visão.
A pobre alma, mediante esta visão, ficou tão repleta de coragem que lhe pareciam mil anos o tempo para romper definitivamente com o mundo e dedicar-se inteiramente ao serviço divino nalgum instituto religioso.

O significado da supracitada visão foi compreendido por esta alma, mas não claramente. O Senhor, porém, quis manifestar-lhe o significado desta simbólica visão com uma outra visão (a segunda), poucos dias antes dela entrar na vida religiosa. Digo poucos dias antes, porque ela já havia feito o pedido ao Superior Provincial do qual havia recebido a resposta de aceitação, quando o Senhor se dignou dar-lhe esta outra visão, a qual foi puramente intelectual.
Era o dia da Circuncisão de Nosso Senhor (01/01/1903), cinco dias antes da partida dela da casa paterna. Havia comungado e enquanto se entretinha com o seu Senhor foi instantaneamente investida de luz sobrenatural interior. Por meio desta luz puríssima, repentinamente, compreendeu que a sua entrada na vida religiosa para dedicar-se ao serviço do celeste Monarca outra coisa não era do que expor-se à luta com aquele misterioso homem do inferno com o qual havia mantido a batalha na visão precedente.
Compreendeu ademais, e isto valeu para confortá-la, que, embora os demônios se fizessem presentes aos combates dela para zombarem nas derrotas, por outro lado nada havia a temer porque aos combates dela assistiriam os anjos seus para aplaudir frente às derrotas de satanás.
E uns e outros estavam simbolizados nos dois grupos de homens que tinha visto na outra visão. Compreendeu, ademais, que o inimigo, com o qual devia lutar, embora fosse terrível, não devia temê-lo, porque ele mesmo, Jesus Cristo, representado por aquele homem luminoso que lhe servira de guia, a assistiria e sempre lhe estaria próximo para ajudá-la e premiá-la no céu pelas vitórias que alcançasse, contanto que, confiada somente nele, tivesse combatido com generosidade.
Esta visão tornou generosamente forte esta alma para dar o seu último adeus ao mundo. Mas não se deve crer que ela nada tivesse que sofrer na parte inferior, pelo abandono a dar aos seus, com os quais se sentia fortemente ligada. Sentia até serem-lhe moídos os ossos neste abandono a ser feito e esta dor sentia-a sim ao vivo, a tal ponto que estava por desmaiar.

Conforme se aproximava o dia da sua partida, esta angústia ia crescendo sempre mais. Na noite, a última que passava junto aos seus, o Senhor veio confortá-la com outra visão (a terceira). Viu Jesus e sua Mãe que com toda a majestade puseram-se a encorajá-la e a confirmar-lhe a predileção deles. Jesus, enfim, pôs-lhe uma mão sobre a cabeça, e isto foi o suficiente para torná-la forte na parte superior da alma, de tal modo a não fazer-lhe verter sequer uma lágrima na dolorosa separação, apesar do pungente martírio que a angustiava na alma e no corpo”. (Epistolario I, pp. 1280-1284).
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Mais tarde, em novembro de 1922 (com 35 anos de idade, 12 de sacerdócio e quase 20 daquelas 3 visões), ele toca de novo no assunto ao escrever a uma dirigida espiritual, Nina Campanille, pedindo-lhe orações. Eis alguns tópicos:
“Jesus esteja sempre convosco! (saudação à Nina).
Estou no terceiro dia do santo retiro espiritual e, através da fulgurante graça de Deus, vou conhecendo sempre mais a mim mesmo, por um lado e a bondade de Jesus para comigo e para com todos vós, por outro lado.
Reza por mim a este Amante divino, a este querido Esposo das nossas almas, para que complete a obra da graça que iniciou comigo pobrezinho. Em mim pobre e vil criatura sua, que desde o nascimento me demostrou sinais de especialíssima predileção: demostrou-me que ele não somente seria o meu salvador, o meu sumo bem-feitor, mas o amigo devoto, sincero e fiel, o amigo do coração, o eterno e infinito amor, a consolação, a alegria, o conforto, todo o meu tesouro”.
(E passa a descrever a sua infidelidade aos dons de Deus...)
Depois continua:
“Mas tu, Senhor, que fizeste experimentar todos os efeitos de um verdadeiro abandono a este teu filho, surgiste no fim, estendeste-me a tua mão poderosa e me conduziste lá onde antes me havias chamado. Sejam-te dados infinitos louvores e ações de graças, ó meu Deus!
Mas tu me escondeste aqui, aos olhos de todos, mas havias confiado desde então uma grandíssima missão ao teu filho: missão que a ti e a mim somente é conhecida. Meu Deus! Pai meu! como correspondi a tal missão?
Não o sei. Sei somente que talvez devia fazer mais, e (este) é o motivo da presente inquietação do meu coração.

Inquietação que sinto agigantar-se sempre mais dentro de mim nestes dias de retiro espiritual. Levanta-te portanto mais uma vez, ó Senhor, e liberta-me sobretudo de mim mesmo e não permitas que se perca aquele, que com tanta solicitude chamaste e roubaste do mundo que não é teu. Surge portanto mais uma vez, ó Senhor, e confirma na tua graça aqueles que me confiaste e não permitas que alguém venha a se perder desertando do ovil.
Ó Deus! ó Deus!... não permitas que se perca a tua herança. Ó Deus! faz-te sentir ao meu pobre coração e completa em mim a obra já iniciada.
Sinto internamente uma voz que freqüentemente me diz: Santifica-te e santifica. Pois bem, minha caríssima (Nina), eu o quero, mas não sei por onde começar.
Ajuda-me também tu; sei que Jesus te quer tanto bem e o mereces. Portanto, fala-lhe por mim, que me conceda a graça de ser um filho menos indigno de São Francisco, que possa servir de exemplo aos meus confrades de modo que o fervor continue sempre e aumente cada vez mais em mim de tal forma a fazer de mim um perfeito capuchinho.
Deixo-te no Coração sacratíssimo de Jesus e abençôo-te com duplicado afeto. P. Pio” . ( Epistolario III, pp. 1005-1010).

Quem se inteira da autêntica vida do Padre Pio, dá-se conta de que toda ela se transformou, por assim dizer, na batalha prevista na primeira visão. E que ele foi fiel no combate até o fim. Com toda a certeza recebeu a maravilhosa coroa que o Guia lhe prometera na ocasião. As lutas com o demônio (os demônios), também fisicamente, foram mais vezes comprovadas até por autoridades eclesiásticas. Lutas com os demônios muito mais graves no âmbito moral, pelas tentações, especialmente contra a fé. Luta sofrida também da parte dos homens, inclusive autoridades eclesiásticas, com mil e umas contradições, desconfianças, e até calúnias e punições. Mais os sofrimentos físicos por doenças corporais (inexplicáveis) que o acompanharam durante quase toda a vida. Em sentindo místico, a noite escura, os estigmas e demais dons místicos também configuram o homem da dor, do sofrimento, da verdadeira vítima.

Pe. Bento de São Marcos in Lamis, seu diretor espiritual (na época era também seu Reitor Provincial), frente às angústias do Padre Pio por ocasião da transverberação (que a considerava como condenação, vingança de Deus) respondia-lhe: “Piuccio caríssimo, nada de abandono, nada de justiça vingativa, nada de indignidade de vossa parte merecedora de rejeição e de condenação. Tudo o que acontece em vós é efeito de amor, é prova, é vocação a co-redimir, e, portanto, é fonte de glória... Eis tudo, eis a verdade e somente a verdade. A vossa não é sequer uma purificação, mas uma união dolorosa. O fato da ferida (transverberação) realiza a vossa paixão tal como a realizou o Amado na cruz”... (Epistolário I, p 1068 s).
Vocação a co-redimir: Padre Pio muitas vezes oferecia-se como vítima pelos pecadores e pelas almas do purgatório. No dia 29 de novembro de 1910 (ordenado padre há pouco mais de 3 meses) pedia ao diretor espiritual, Pe. Bento: “Há muito tempo que sinto em mim uma necessidade, isto é, de oferecer-me ao Senhor como vítima pelos pobres pecadores e pelas almas do purgatório. Este desejo foi crescendo sempre mais no meu coração, tanto assim que agora se tornou, por assim dizer, uma forte paixão. Na verdade, fiz mais vezes esta oferta ao Senhor, esconjurando-O a verter sobre mim os castigos preparados para os pecadores e para as almas do purgatório, até centuplicando-os sobre mim, contanto que converta e salve os pecadores e admita logo no paraíso as almas do purgatório; mas agora quisera fazer ao Senhor esta oferta com a vossa obediência” (Epistolário I, p. 206).
Podemos dizer que Deus aceitou tal oferta. E também os estigmas que recebeu como dom e que o acompanharam por mais de 50 anos, vertendo sangue a cada dia, são um sinal da sua identificação com o Cristo Crucificado. Os estigmas não eram meros enfeites, para suscitar a curiosidade do povo, mas uma perfeita participação nos sofrimentos de Cristo. Padre Pio podia repetir com muita propriedade para os seus dirigidos o que São Paulo dizia de si mesmo: “Agora eu me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e completo, na minha carne, o que falta às tribulações de Cristo pelo seu Corpo que é a Igreja” (Cl 1,24).
Apraz-me transcrever o que Frei Francisco Colacelli, no Editorial de “Voce di Padre Pio”, anno XXXVII, n. 9, settembre 2006, p. 3, apresenta: 
“Nós aqui em San Giovanni Rotondo “usamos” (sic) o nosso Santo. Continuamos a propor, como bandeira, um homem chamado por Deus para tornar novamente visível ao mundo o Evangelho de Cristo crucificado. A missão do Padre Pio, portanto, de forma alguma acabou. E não é só a de converter. Não se esgota sequer considerando a oferta dos seus sofrimentos, numa humilde disponibilidade para a corredenção, para completar na sua “carne o que falta aos sofrimentos de Cristo, em favor do seu corpo, a Igreja”. Ele foi e continua a ser, na época do triunfo dos sentidos, o sinal do sacrifício divino que se tenta obscurecer. O sinal duma morte na cruz que grita “amor” a toda a criatura”.

Por isso é que São Pio de Pietrelcina atrai hoje tantas pessoas e a tantos também agracia. É um extraordinário homem de Deus, um santo para os nossos tempos.
Ele próprio, apesar da sua profunda humildade, reconheceu que “desde o nascimento Deus lhe demonstrara sinais de especialíssima predileção..., que lhe confiara uma grandísima missão conhecida somente por ele e por Deus”... Uma grandíssima missão que não se reduziria ao tempo de sua vida mortal, mas que se prolongaria nos tempos futuros e que está deveras se prolongando nos nossos dias.


Fonte: Introdução e tradução de Pe. Bernardino Trevisan