Deus fará grandes coisas com vocês



Homilia do Arcebispo Malcolm Ranjeth,
Secretário da Congregação do Culto Divino, proferida na Missa de Formatura da Classe 2007, no “Thomas Aquinas College, Santa Paula, Califórnia.

(Thomas Aquinas College, Faculdade Católica, mas não é seminário.
Dentre os muitos e bons frutos “produzidos”durante sua curta história de 36 anos, figura o elevado número de vocações sacerdotais e religiosas.
Incluindo os 3 estudantes ordenados neste ano, o número de padres dentre seus ex-alunos já chega a 47;
além dos 35 ex-alunos que se encontram estudando, em diversos seminários.
É de se perguntar: De onde vêm tantas vocações?
Não será de sua fidelidade à ortodoxia da Igreja?

Queridos irmãos e irmãs no Senhor e caros estudantes:

Certa vez estava eu viajando de trem de Lion a Paris, quando inesperadamente uma senhora veio sentar-se na poltrona a meu lado. Vendo meu colarinho de padre, o crucifixo na lapela do sobretudo e um livro aberto nas mãos, logo me perguntou: “O senhor acredita em Jesus?” Fiquei surpreso e até achei graça.“Claro que sim, não vê que sou padre?” – fui dizendo. “Mesmo assim – falou ela – o senhor acredita em Jesus?” Fiquei ainda mais admirado e – reconheço – até um pouco ofendido.

Levantando-se, ela deu uns passos e abordou um senhor que lia seu jornal. Pelo jeito, ele não gostou, pois virou o rosto para o outro lado. E assim foi a um terceiro, que a olhou com cara de poucos amigos. Desta forma, continuou andando e falando com uns e outros. Depois de um tempinho, vi que voltava. Então, tomando a iniciativa lhe falei, “Por favor, sente aqui; gostaria de saber o que está fazendo.” “Padre, sabe – respondeu-me – sou católica, mas por um tempo andei desanimada e meio que perdi a fé. Fui então procurar o pároco e lhe perguntei: ‘Que devo fazer para sentir novamente a alegria da fé?’ Sua resposta foi: ‘Tome o trem uma vez por semana, e tente passar adiante o que sabe sobre Jesus’. E aqui estou, faço isto quase todos os dias. Noto que, passando aos outros o que sei sobre Jesus, minha fé cresce! Além de entendê-la mais, aprendi a valorizar essa grande graça”.

Suas palavras me recordaram uma frase da encíclica “Redemptoris Missio” (a Missão do Redentor), de João Paulo II, que trata do mandato missionário da Igreja. Dizia mais ou menos assim: “A fé torna-se mais forte à medida que é partilhada”. Sim, concordo, a fé se fortalece quando vocês e eu a partilharmos com os outros. Aqui se encontra o segredo de nossa identidade íntima e o sentido de nossa alegria.


O Sentido Missionário

Meus queridos irmãos e irmãs e caros estudantes:
Se alguma vez experimentarem desânimo e falta de fervor na sua fé em Jesus, é certamente sinal de que perderam também o sentido missionário, o entusiasmo e a alegria que normalmente deveriam acompanhá-lo. A perda do sentido missionário, por outro lado, é sintoma de uma profunda concepção errônea ou confusão a respeito deste tesouro infinito – nossa fé – e do chamado inerente a proclamá-la: um tesouro que nos foi confiado individualmente como discípulos de Cristo e coletivamente como membros da Igreja. Distrações e elementos transitórios muitas vezes nos tentam e tendem a sufocar o chamado à liberdade, à nobreza e à transcendência, a nós dirigido pelo próprio Cristo, que nos convida a unir-nos a Ele para criar o novo céu e a nova terra. Se esses obstáculos não forem superados, podem turvar a clareza a respeito da conexão íntima que existe entre o que celebramos e o que vivemos, principalmente, quanto à Santíssima Eucaristia.

Se, porém, percebemos que a nossa fé anda frouxa, provavelmente, será devido a confusões mentais relacionadas com o verdadeiro significado da fé para cada um de nós. Por isso, devemos começar erradicando essas dúvidas, para melhor entender o significado da fé e porque ela é tão importante para nossa vida. Precisamos igualmente dar uma olhada na natureza fortemente expansiva e missionária dessa fé.

Quando falamos na fé e na missão, deve ficar claro que a Igreja mesma, em primeiro lugar, se reconhece como o instrumento especialmente escolhido por Deus para a salvação do mundo. Desta forma, todo o que, pelo batismo, for incorporado à Igreja, ipso facto é reconhecido como missionário, alguém que participa da missão salvífica de Jesus, pois a Igreja é o prolongamento de Jesus dentro da história.


Jesus, o Missionário de Deus

Na Igreja, que se torna seu Corpo Místico, Cristo continua vivendo através dos séculos, continua realizando Sua missão. Como membros que somos de Seu corpo, como partes de Seu corpo doador de vida, também participamos de Sua missão. Devemos, pois, evangelizar, transmitir o sentimento de alegria inerente à nossa fé. Devemos levar adiante, tornar-nos instrumentos e voz de Jesus na atualidade, porque reconhecemos que ele mesmo é o Missionário de Deus, que foi enviado por Deus. Ele sempre confirmou isso.

No Evangelho de João, em vários capítulos o encontramos falando sobre este seu envio por parte do Pai; Ele é o Missionário. “Deus amou tanto o mundo – encontramos ali –, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. (Jo 3,16). Jesus tornou-se a encarnação desse amor de Deus e o manifestou em sua totalidade quando, ao entregar a vida por nós, desejou que toda a humanidade fosse salva e recebesse a boa nova da salvação. Por isso, a morte dele na cruz constitui o momento culminante da expressão, da manifestação do amor de Deus para com o homem. Na Cruz e da Cruz reverbera o anúncio daquele amor contagiante de alegria.


A Igreja, prolongamento da Vida de Cristo

A morte e ressurreição de Jesus devem ser vividas radicalmente por todos individualmente, através dos séculos, a fim de transformar o amor de Deus em algo palpável para a humanidade. Tal é a nossa missão: dar continuidade à vida de Cristo no mundo. Ele fundou Sua Igreja com os apóstolos e lhe conferiu a missão de anunciar a boa nova a todos e a cada um, chamando-os à penitência, a crerem nEle e a uma vida nobre por natureza. Essa missão deve libertar a criação em sua totalidade, o cosmos e o homem, dos grilhões do pecado e da morte, deve recriá-la transformando, assim, tudo em novo céu e nova terra.

Ao longo da Bíblia, especialmente nos escritos de Paulo, se encontra essa extensão cósmica da missão de Jesus. Isto é, Jesus veio à terra para salvar não somente a humanidade, mas, através dela, tudo o que Deus criou, pois no princípio do Gênesis encontramos que Deus criou todas as coisas e se alegrou com elas, reconhecendo que tudo era bom (Gên 1,25). Foi a pecaminosidade do homem que manchou o esplendor da criação, que a mutilou, que a tornou escrava de uma dicotomia visível em nós. Jesus veio para devolver à criação a sua pureza original, para restaurar a pureza divina, tanto na criação quanto no homem, para restaurar a integridade. Nós cristãos, como parte de Seu corpo, precisamos viver essa vocação para purificar a nossa vida e a vida do mundo tanto do pecado como de seu estado inerente de quebrantamento. Tal é a essência de nossa vocação como cristãos.


A Igreja existe para Evangelizar

Como se vê, a Igreja, por sua própria essência, é missionária. Segundo o Papa Paulo VI, ela “existe para evangelizar”(Evangelii Nuntiandi), isto é, para ensinar e pregar. Se a Igreja existe para evangelizar, mas não evangeliza, deixa de existir. Está perfeitamente claro. Conseqüentemente, se eu sou cristão mas não evangelizo, deixo de ser cristão. De ser parte da Igreja, que existe para evangelizar. Pelo próprio sentido de sua existência, portanto, a Igreja tem de evangelizar e procurar assim libertar a humanidade através de Cristo. Este é um chamado muito nobre. Contudo, quantas vezes o subestimamos, julgando-o facilmente em termos profanos. Eis aqui a causa da letargia e do sentimento de pessimismo que muitas vezes tendem a nos dominar.

Jesus nos mandou não só evangelizar, mas a fazê-lo com amor, assim como Ele nos amou. Antes de subir ao Pai, convocou os discípulos e lhes deu o mandato missionário: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura” (Mc 16, 15). Mas também mostrou como fazê-lo, quando na Última Ceia, lavou os pés dos discípulos dizendo-lhes: “Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos”. (Jo 13, 34-35) A Igreja deve, pois, ser a manifestação do amor de Deus, a expressão do seu amor à humanidade; este é também seu meio mais eficaz de evangelizar. Cabe a cada um de nós ser exemplo vivo desse mandamento do amor. Assim, a nossa missão de evangelizar será uma expressão do amor, motivada pelo amor.


Amar como Ele amou

Jesus não está falando aqui de um mero amor humano, e sim de algo incomensuravelmente mais nobre. Devemos amar-nos seguindo seu exemplo, assim como Ele nos amou. E como nos amou Jesus? Na verdade, Ele deu de comer aos famintos, curou os doentes e ressuscitou os mortos. Mas foi só isto? Não. Levou esse amor a um grau tão alto, a ponto de se deixar crucificar, de entregar a vida para nos libertar do pecado. Esse foi o ápice de Seu amor. Foi desta forma que Ele desejou que amássemos nossos irmãos e irmãs, amá-los de um modo capaz de nos fazer suspirar intensamente, como Ele suspirou pela salvação deles. Sim, amá-los como Ele os amou, anelando por sua salvação, prontos a doar a própria vida por eles, porque essa é a nossa vocação. Cada irmão e irmã que encontrarmos, é nossa obrigação procurar conduzi-los à salvação.

Jesus nos mostrou nisto o limite supremo do amor. As tragédias que seguido acontecem, tanto nas vidas dos seres humanos como também em nações inteiras, são causadas não por falta de amor, mas por não sabermos amar. Quantas vezes o amor que expressamos é motivado por considerações egoístas, não é desinteressado como o de Jesus, capaz de levar a humanidade a Deus, reconciliar toda pessoa com Ele. Devemos ser capazes de entregar alegremente tudo o que temos e somos, porque este é o amor em sua modalidade mais perfeita. E também nossa Missão.


“Os homens se esqueceram de Deus”

O mundo suspira por Deus e sofre por se ter afastado dele. Tempos atrás, o poeta russo Aleksandr Solzhenitsyn, prêmio Nobel de literatura em 1970, escreveu um belo artigo para a revista The National Review. Nele dizia mais ou menos assim:
Quando comecei a ir à escola em Rostov-on-Don [uma cidade da Rússia], as outras crianças, empurradas por membros do Komsomol (a Liga Comunista dos Jovens) troçavam de mim por me verem acompanhar minha mãe à última igreja que havia na cidade; chegaram a me arrancar o crucifixo que levava ao pescoço.
Anos mais tarde, ouvi que um grupinho de pessoas, já de certa idade, tentava explicar o grande desastre que havia caído sobre a Rússia: ‘Os homens se esqueceram de Deus; esta é a razão porque tudo isto está acontecendo. Os mais velhos costumavam perguntar-se: Por que ocorrem essas catástrofes na Rússia, tanta gente morta e assassinada?’ E logo respondiam: ‘Porque os homens se esqueceram de Deus’.

Desde então passei em torno de 50 anos trabalhando sobre a história da Revolução Russa. Pude recolher centenas de testemunhos pessoais, ler livros às centenas e contribuir com oito volumes próprios. Mas se hoje me pedissem para formular, o mais concisamente possível, a principal causa dessa funesta revolução que custou a vida de 60 milhões de pessoas, não poderia fazê-la mais acertadamente que repetir: ‘Os homens se esqueceram de Deus’.

E mais: se me encarregassem de identificar a principal característica de todo o século XX, seria incapaz de achar qualquer outra razão mais precisa que o fato de termos perdido o contato com nosso Criador. Os fracassos da consciência humana, destituída de sua dimensão divina, foi um fator determinante de todos os grandes crimes do século.

Isto foi escrito por um poeta russo que viveu num país onde o ateísmo era a ideologia oficial do Estado. Mesmo assim, afirmou categoricamente, “Todos os grandes crimes deste (último) século” foram cometidos por gente convencida de que Deus não existia. Esta é uma situação realmente triste. Por outro lado, mostra a necessidade de buscar algo mais nobre para a vida humana – buscar o infinito em meio a tanta finitude; a liberdade verdadeira em meio a tanta escravidão; a verdade em meio a tanta falsidade, presunção e relativismo; a gentileza e a humildade em meio a tanta soberba e arrogância; e a comunhão com Deus e com nosso próprio irmão e irmã em meio a tanto individualismo e egoísmo.


Não há limites quanto ao que podem fazer

Queridos jovens: Hoje vão partir. Este é supostamente o dia de seu “commencement” (ato da entrega de diplomas). De início, pensei que “commencement” significasse o começo de seus estudos; mais tarde, porém, me disseram que não era isso não, e sim o começo de sua vida lá fora. Que dia maravilhoso! Penso que lembrarão este dia com carinho, não por causa do meu sermão, mas porque Deus vai fazer um milagre no interior de cada um de vocês, porque Ele os está chamando para Sua missão lá fora. Estiveram abrigados neste belo estabelecimento, como os apóstolos no Monte Tabor. Mas agora irão partir para o mundo, e é lá que se encontram os desafios. Mas isso não deverá assustá-los. Como católicos, lembrem: não há limites no que podem fazer, contanto que se entreguem nas mãos de Jesus, dispostos a trabalhar. Ele fará grandes coisas com vocês.

Há tanta arrogância, indiferentismo, confusão, um enorme sentimento de fracasso no mundo lá fora! Vocês possuem esse tesouro extraordinário: a fé e a convicção jubilosa de que Jesus precisa de vocês e tem lugar para cada um. Disseram-me que foram instruídos nos clássicos e na teologia. E, claro, estudaram Santo Tomás de Aquino, pois esta Faculdade é dedicada a ele. Estudaram também Santo Agostinho; estudaram os velhos clássicos, os clássicos latinos. Entendem pois o anseio do espírito humano pela verdade, pelo belo e a liberdade. Lá para onde forem, a humanidade está apelando para a Igreja, isto é, por vocês e por mim, discípulos de Cristo, para ter as respostas.

A Igreja não são apenas os bispos, os padres ou as irmãs. Não. A Igreja são vocês – cada um de vocês. Como membros do Corpo Místico de Cristo, como todos os batizados em Seu nome, são chamados a participar na grande missão, lá fora, de anunciar que Deus ama o mundo, que Ele quer salvá-lo e quer trazer de volta a humanidade e o mundo àquela primitiva glória com que o criou.

As Escrituras dizem: “Homem e mulher Ele os criou... Criou-os à sua imagem e semelhança” (Gn 1, 27). Que grande consideração! Já imaginaram a grandeza do tesouro que levam em seu interior, por terem sido criados à imagem e semelhança de Deus? E tem mais: Ele os convida a cerrar fileiras com Ele em Sua missão. Quer que tomem parte nesta grande história de amor. Ele os envia hoje ao mundo para falarem nessa história. Até através das menores coisas que fizerem, Ele quer que sejam a expressão de Seu amor em tudo, procurando fazer sempre o melhor possível.

Diria até, caros estudantes, que o céu é o limite em relação ao que podem realizar lá fora. Sim, depois de formados nesta eminente instituição, com certeza, terão êxito na vida; terão um bom trabalho e sentir-se-ão felizes com o seu progresso. Mas isso não é suficiente. Devem fazer coisas ainda maiores. Trata-se de um chamado pessoal. O Papa João Paulo II diz: “Todo discípulo é chamado pessoalmente pelo nome; nenhum poderá negar-se a dar uma resposta”. (Christifideles Laici 33) Como S. Paulo disse: “Ai de mim se não anunciar o Evangelho”. (1 Cor 9,16)


Ponham seus talentos a serviço dele

Queridos irmãos e irmãs, a leitura de hoje (a parábola dos talentos, Mt 5, 14-30) fala no chamado à criatividade, no julgamento e na responsabilidade quanto a importantes orientações em nosso relacionamento com Deus e compromisso com Sua missão. A diferença entre o número dos talentos que cada servo recebeu, como ouviram no Evangelho, é tudo em benefício do Senhor e de Sua missão. Como indica o Evangelho, esses talentos não provêem das pessoas, mas foram dados por Deus. Os servos recebem os talentos do próprio Senhor.

Usando a inteligência recebida de Deus, é sua obrigação pô-los a serviço dele. Pois os talentos não lhes pertencem, mas são daquele que lhos concedeu. Ele lhos deu. Multipliquem-nos. Assim poderão dizer-Lhe um dia: “Senhor, destes-me cinco talentos, aqui tendes mais cinco” – ou mais dez e, talvez, um número ainda mais alto, se forem capazes de ousar mais por Ele. Mas lembrem, Ele lhos dá; Ele também os ajudará a multiplicá-los, se os usarem para Sua glória.


Ele estará com vocês

Não é uma caminhada a ser feita a sós, Ele estará com vocês, os acompanhará sempre! Lembrem, se forem, Ele os guiará para que possam produzir muitos frutos. Coisas grandiosas Ele fará por meio de vocês, e os talentos irão crescendo mais e mais e serão capazes de colocá-los a Seus pés, fazendo, por outro lado, que Ele os cumule com dons ainda maiores.

Mas o Evangelho também mostra a possibilidade de assumir a atitude do preguiçoso que preferiu escondê-los. Vemos aqui o sentido da liberdade que o Senhor concede a seus servos. Ele não impõe. A leitura dos Atos dos Apóstolos (1, 3-8) nos mostra o contexto em que os talentos se tornam oportunidades. É nossa obrigação usar para Ele não somente esses talentos, mas também os que formos adquirindo, pondo-os a serviço de Sua grande missão, aquela de redimir a humanidade e a criação de seu estado debilitado pelo pecado, mediante a manifestação do amor de Deus. Esta é uma grande oportunidade oferecida a nós, Seus servos.

Queridos irmãos e irmãs, rezemos hoje por esses jovens. Vós, pais, sede agradecidos a Deus pelos preciosos tesouros que esses jovens representam. É uma lástima que hoje quase não se valorize o dom de ter filhos. Toda vez que uma criança nasce, o choro que se ouve no momento em que a mãe a dá à luz, deve ser um choro de esperança, não de desespero ou de pessimismo. É, portanto, um pecado rejeitar a misericórdia de Deus dizendo que “os filhos são uma carga para nós, que teremos de fazer muitos sacrifícios por eles”. Tais considerações são basicamente egoístas, e o Papa João Paulo II as classificou de “manifestações da cultura da morte”.

Certa vez estava eu caminhando pela “Rue du Bac”, em Paris, quando vi um carro com um casal de idosos. O carro parou perto de mim, pois eu estava esperando para atravessar a rua. Observando-os, notei que atrás deles vinham também dois cachorros. O casal pareceu-me triste e solitário. Isto me fez compreender que se em toda parte impera a solidão, talvez seja porque a humanidade rejeita a vida e abraça a cultura da morte. Quantos preferem ter um ou dois animaizinhos para acariciar e mimar, em vez de filhos. Por outro lado, que tesouro são nossas crianças! Como diz a Bíblia, elas são deveras uma bênção!


Rezemos por esses jovens

Dentre esses vossos filhos, já prestes a deixar a Faculdade e entrar no mundo, certamente surgirão muitos cidadãos importantes – médicos, advogados, contadores, arquitetos, irmãs religiosas, sacerdotes, bispos, cardeais e talvez até um Papa. Muito difícil saber! E, quase com certeza, haverá também outro Tomás Aquino. Por que não? Não é difícil imaginar o que Deus poderá realizar nesses jovens. Como para ele tudo é possível, todos eles podem transformar-se em milagres da grandeza de Deus. É claro, se os ajudardes com vossas orações.

Parabéns, pais, pela sábia decisão de enviar vossos filhos a esta instituição. De fato, ela oferece uma vigorosa educação católica – não só em ciências e conhecimentos, mas também em fé, compromisso, coragem, heroísmo, prontidão em afrontar riscos para crescer, prontidão em agarrar-se nas mãos de Jesus para caminhar com Ele e se tornarem úteis para Ele, nesta vida. Alegrai-vos por esta ótima escolha. Continuai ajudando-os. Rezai por eles. Acompanhai-os com amor.

Todos nós, nesta Missa, rezaremos por vocês, queridos jovens, para que um dia – um dia – Deus lhes fale aquelas bonitas palavras: “Parabéns, servo bom e fiel! Vem participar da alegria do teu Senhor” (Mt 25,21). Que palavras lindas! Qual música, elas ficarão soando aos nossos ouvidos! Portanto, rezemos hoje e, de uma forma especial, supliquemos ao Senhor – que eles sejam protegidos e fortalecidos na determinação de servi-Lo, para tomar parte em Sua grande missão e entenderem a grandeza de sua vocação.

Permitam-me terminar com outro pequeno incidente. No tempo em que trabalhava como padre numa paróquia, fui visitar um amigo, também padre, já bem idoso. Enquanto falávamos, a campainha tocou. Ele foi atender, e eu pude escutar sua conversa, pois não havia paredes, apenas separações parciais. Ouvi alguém dizer-lhe: “Padre, eu quero me tornar sacerdote”. Ao que o meu amigo exclamou: “O quê? Está louco? Não vê como estou sofrendo? Vá embora! Vá, vá!” Ao voltar, estava ele todo vermelho, e lhe falei: “Padre, não pude deixar de ouvir o que o senhor disse. O senhor não compreende, Padre, a sua, e também a minha, é uma grande vocação, a maior de todas! Por que então esse pessimismo?”

Anos atrás, fui dar uma palestra a um grupo de seminaristas dos Legionários de Cristo. Logo depois, fomos jantar todos juntos. Sentado à mesa comigo, estava um rapaz que anteriormente fora dentista. Praticara por algum tempo, mas abandonara a carreira. Perguntei-lhe: “Como foi que sentiu sua vocação?” “Não sei, não posso explicar” – me respondeu. Em seguida acrescentou: “Saí à procura de uma comunidade, e o padre superior me disse: ‘Tudo bem, continue pensando; ainda não; deixe passar mais algum tempo e depois venha’. E um outro ainda: ‘Tem uma boa profissão. Continue fazendo a vontade de Deus ali mesmo. O que vai mudar, vindo aqui e ficando padre?’ Todos procuravam me desanimar. Até que enfim ouvi algo especial a respeito desta família religiosa e acabei telefonando ao Superior. ‘Que bom – foi ele dizendo – uma grande idéia! Venha imediatamente’. Diante de tal acolhida, concluí: ‘É para lá que eu vou Vejo que ali há esperança, há alegria e determinação’”.


Partam para a Missão de Cristo

Queridos jovens, o céu é o limite. Com Jesus, podem realizar grandes coisas. A missão está ali, o mundo os espera! Seus irmãos e irmãs contam poder ouvir o que vocês têm a dizer-lhes, não com palavras científicas, filosóficas e teológicas; esperam ver em vocês outros Cristos, sentir a plenitude da sua fé. Partam e ponham em prática essa fé, e Deus lhes permitirá realizar grandes coisas. Sejam Seus missionários intrépidos e heróicos. O heroísmo lhes dará vida nova!

Querem ouvir mais esta opinião? Tenho certeza de que o Dr. Dillon (Diretor da Faculdade “Thomas Aquinas”) gostaria de poder dizer um dia no seu relatório – é claro, não sei se nesta ocasião, ele se encontrará na terra dos vivos, ou se eu estarei ainda na terra dos vivos – mas, certamente, seria para ele uma grande satisfação em poder dizer: “Um dos nossos alunos se tornou Santo tal-e-tal ou Santo tal-e-tal”. Não seria essa uma experiência sem igual? Pelo menos faria do Dr Dillon a pessoa mais feliz do mundo. Aí está ele a confirmar a minha opinião!

Partam, pois, para a missão de Cristo e sejam corajosos. Só assim Ele poderá fazer grandes coisas com vocês. Permitam igualmente que Ele seja sempre sua luz e sua salvação.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.


Fonte: Arcebispo Malcolm Ranjeth