Levou Bárbara Ward até o Padre Pio



Recordando o marquês Bernardo Patrizi aos 105 anos do seu nascimento
(23 de março de 1902)

Último filho duma antiga família oriunda de Sena, onde os Patrizi se distinguiam desde o século XIII, Bernardo foi educado na fé católica e num sentimento de generosa dedicação à Igreja.
Os Patrizi, estando a serviço do Papa já no tempo de Pio II (Eneias Silvio Piccolomini), aportaram em Roma com Alexandre VII (Chigi) e desde então estiveram ao serviço da Santa Sé, quer como integrantes da Guarda Nobre, quer entre os portadores da bandeira papal. Isso até a reforma da Cúria Romana feita pelo Papa Paulo VI.

O marquês Bernardo conheceu o Padre Pio de Pietrelcina nos anos 40 e foi ele quem – como é sabido – levou a jornalista Bárbara Ward, experta em economia, a San Giovanni Rotondo, uma primeira vez em 1947 e depois em 1949.
Por intermédio do namorado (depois esposo) dela, Mr. Jackson, Padre Pio pôde dispor duma considerável soma de fundos da UNRRA para a projetada “Casa Alívio do Sofrimento” (uma boa parte porém foi retida pelo Governo Italiano).

Bernardo deu-se conta logo da extraordinária santidade do frade do Gargano; afeiçoou-se a ele espiritualmente, de tal forma a querer tornar-se um humilde e autêntico “filho espiritual”. E como tal foi acolhido e reconhecido pelo Padre Pio, que o tratava com particular delicadeza, convidando-o até a participar da recreação dos frades, ou permanecendo por muito tempo em colóquio com ele, fato que aconteceu até pouco antes da morte do Padre Pio, sentados nas pequenas poltronas de bambú, próximas da sua cela.

Padre Pio formou o coração do marquês Bernardo, que, por sua vez, correspondeu magnificamente, tornando-se sempre mais fiel, humilde e serviçal.
Bernardo participava diariamente da santa Missa e rezava o terço de joelhos; dedicava-se generosamente aos pobres. Os Padres Mínimos de São Francisco de Paula cujo convento se encontra nas imediações de sua moradia, na Via Margutta, 54, Roma, recordam-no assim.
Naquela rua morava também o “Pietraccio”, como era chamado pelos vizinhos: um pobre homem que abusava do álcool. Certo dia ele chegara a penhorar os surrados sapatos por um copinho de vinho, e por isso se achava descalço. O marquês Bernardo deu-se conta, tirou os próprios sapatos, de couro verdadeiro, feitos numa sapataria de Londres, e deu-os ao “Pietraccio”. Este gabou-se durante semanas na Via Margutta, por estar calçando os sapatos do Marquês. E Bernardo voltou para casa apenas de carpins, enfrentando zombarias, embora apenas jocosas, e para estupor da camareira da família!
Bernardo costumava dizer aos filhos: “Não saiba a mão direita o que faz a esquerda” e procurava fazer o bem sem qualquer ostentação, quase às ocultas.
Assim, somente 40 anos após, soube-se que, tendo encontrado dois orfãozinhos em lágrimas após o bombardeio de São Lourenço perto do cemitério Verano (Roma – na segunda grande guerra) havia-os adotado e postos a estudar em dois conceituadíssimos colégios romanos. E ao chegar o tempo do casamento, à moça ofereceu o dote e arranjou-lhe um emprego numa famosa alfaiataria romana.

O marquês Bernardo teve 4 filhos. A última, Maria Isabel, deu-lhe – como ele mesmo disse - uma descendência espiritual. Essa, na verdade, aos vinte anos, comunicou ao pai o desejo de consagrar-se a Deus. O pai, recolhendo-se em oração por alguns instantes, disse-lhe com humildade e complacência: “Sinto-me honrado por entregar a minha última filha a Jesus como esposa... e assim terei também uma descendência espiritual”.
Uns meses antes deste fato, haviam viajado juntos para a Espanha, nas pegadas de Santa Teresa de Ávila.
Em Alba de Tormes, lugar onde se conserva o coração da Santa, Bernardo e sua filha perceberam um suave odor de rosas amarelas, que os envolvia. Estavam de pé no fundo da Igreja. Naquele dia, no auge da quaresma, todas as estátuas estavam recobertas com tecidos violetas e não havia nenhuma flor, nem plantas. O pai Bernardo, pedindo à filha que o aguardasse na Igreja, saiu da mesma para fazer uma investigação.
Girou ao redor da Igreja, ou melhor por toda a praça, observando bem se as plantas que a adornavam estivessem em flor ou se aquele suave perfume pudesse provir doutra fonte. Nada descobriu, não havia outra conjetura do que a de “um perfume de graças”.
Lembrou-se então do Padre Pio.
Uns quarenta dias após, dirigindo-se a San Giovanni Rotondo, relatou o fato ao Padre Pio, pedindo-lhe explicação. Ao que Padre Pio respondeu: “Ah! percebestes o perfume? Era para vós. Guardai-o bem apertadinho”. Assim, quando Maria Isabel anunciou a decisão de seguir Cristo, pobre, casto, obediente, na trilha dos “conselhos evangélicos”, o marquês não se surpreendeu; quis, porém, do Padre Pio um parecer competente sobre a autenticidade de tal vocação religiosa, que sua esposa Cláudia, ao invés, punha em dúvida.
Padre Pio pediu então à Sra. Sanguinetti que lhe remetesse por escrito em nome dele, essa resposta: “Caro Marquês, esteja tranqüilo, sua filha tem uma verdadeira vocação” (ou palavras semelhantes).

Este precioso testemunho do futuro São Pio conserva-se no Arquivo histórico das “Irmãs Menores de Maria Imaculada” das quais Maria Isabel, depois de oito anos vividos no Carmelo, foi a fundadora.
Ajudou-a na fundação o Padre Elias M. Bruson, OFM conv., que veio a morrer santamente em San Giovanni Rotondo, na Casa “Padre Pio”, Residência para Anciãos, no dia 15 de dezembro de 2002.
Mas retornemos ao marquês Bernardo Patrizi que, além de ser fiel filho espiritual do Padre, foi também membro, desde o início, da construção da Casa Alívio do Sofrimento, fazendo parte do seu Conselho de Administração.
O Dr. José Gusso e outros testemunhas de então afirmaram que o marquês Bernardo, embora apresentasse sempre com franqueza seu parecer, não provocava discórdias, nos modos ou nos tons; manifestava-se com humildade e delicadeza.
É belo contemplar “fotografada” tal humildade, na histórica foto dos participantes da assembléia dos médicos e especialistas que, após a inauguração da Casa Alívio do Sofrimento, compareceram em Roma para a Audiência com o Papa.

Certamente, o Marquês, pelo papel que exercia (como mencionado acima), podia tomar a dianteira. Além disso, fora Pio XII quando Secretário de Estado, que lhe abençoara o casamento. Ou então podia postar-se junto ao professor Pedro Valdoni, grande cirurgião que ele havia apresentado à “Casa Alívio”, e cuja filha freqüentava a escola com Maria Isabel no “Colégio Marymount” de Roma. Pois bem, Bernardo postou-se exatamente às margens do grupo, humilde e quase escondido!
Ele levou sua filha Maria Isabel ao Padre Pio ao menos duas vezes. A primeira em 1947 quando ela era ainda menina de seis anos. Isabel quis confiar ao Padre Pio um “grande segredo”, que a perturbava. Entrou sozinha na sala dedicada aos visitantes do antigo convento e perguntou-lhe: “Padre, imagina que Jesus fique enciumado porque eu amo muito a Mãe dele?”
Padre Pio explodiu numa risadinha festiva, deu-lhe um piparote com a mão direita na bochecha. Depois, gesticulando com a mesma mão, sublinhou solenemente com grande satisfação: “Mas não !... Jesus está muito contente”.
E com a mão erguida, reforçando a exclamação: “Jesus está contente – repetiu – que tu ames assim a Mãe dele!”

A pequena saiu saltitando feliz... e nunca mais se esqueceu disso... de tal forma que o Instituto religioso fundado por ela em 1983, nas pegadas de São Maximiliano M. Kolbe e de Santa Teresinha do Menino Jesus, foi consagrado particularmente a Maria Imaculada, para expressar e prolongar a ternura materna dela para com toda humanidade, para com todas as pessoas.
Quando Maria Isabel completou 19 de idade, juntamente com o pai, retornou a San Giovanni Rotondo. Ela colocou-se na longa fila dos penitentes e pôde enfim confessar-se com o Padre Pio, na antiga igrejinha, no confessionário reservado às mulheres, que ainda existe. Feita a confissão, ao retirar-se, Padre Pio, abrindo a cortina do confessionário, fez-lhe aceno para aproximar-se.
Maria Isabel acorreu, baixou a cabeça e Padre Pio impôs-lhe as duas mãos com gesto de paternal vigor. Ou, para sermos precisos, pressionou as duas palmas das mãos estigmatizadas sobre a cabeça da jovem, mantendo-as assim por um bom tempo. Uma forte unção do Espírito Santo envolveu-a, compenetrou-a, levando-a a chorar de alegria.
O que teria visto Padre Pio naquela jovem? Talvez a futura fundação das Irmãs, a dos Frades Menores e a da Família de Maria Imaculada? Não nos é dado saber.

Podemos, porém, admirar a virtude de Bernardo o qual, embora percebendo que a filha saia da igrejinha em lágrimas, na hora não lhe perguntou absolutamente nada. Contudo, como entenderemos a seguir, sofria, ou melhor, sentia-se perturbado.
Ao cair da tarde, o marquês e a filha jantavam no hotel “Santa Maria das Graças”. Somente então, fixando-a com um olhar amoroso mas penetrante, o pai perguntou: “E dizer que eu acreditava ter uma filha muito boa. Talvez o Padre te chingou por algo? Vi-te chorar”.
Mas a filha tranqüilizou-o explicando-lhe que o fogo da caridade, emanado daquelas mãos estigmatizadas, havia-lhe infundido na alma uma onda de consolação espiritual, e por isso o seu ânimo estava derretido como a neve ao sol.
O Marquês Bernardo levara os seus filhos a amar a “Casa Alívio do Sofrimento”, da qual ele lhes contava os progressos. E eles recolhiam as pequenas economias em grandes mealheiros de louça.
Seguidamente, ao retornar a Roma, depois dalguma visita a San Giovanni Rotondo, contava-lhes episódios de que fora testemunha direto, como o do cego de ambos os olhos que pediu ao Padre Pio se poderia obter-lhe a cura ao menos de uma vista. Ao que o Padre explodiu dizendo que Deus não era mesquinho; se concedesse a graça, haveria de concedê-la por completo! Contava-lhes das conversões que aconteciam, também de pessoas ilustres, e de como uma vez ele mesmo fora repreendido pelo Padre por não haver pensado de enviar-lhe o Anjo da Guarda, para pedir orações pelo filho de Bárbara Ward doente, “ao invés de pensar somente no correio!”, que estava fechado por causa duma festa nacional! Expressões, gestos, anedotas relacionadas com Padre Pio eram normalmente lembradas, e assim os filhos cresceram em espiritual familiaridade com Padre Pio.

Mas o marquês Bernardo guardava para si as dolorosíssimas situações de que tinha conhecimento, esperando que amadurecessem os tempos de Deus e as decisões da Igreja. Por ele, porém, não nutria dúvidas sobre o sucesso da obra de Deus empreendida por Padre Pio!
Ir Maria Isabel, a Fundadora, confiou os Seminaristas do “Colégio Maria Imaculada” (erigido pelo Cardeal Vigário de Roma, Ruini, em 8 de setembro de 2006) bem como os “Frades Menores de Maria Imaculada” ao celeste cuidado do Padre Pio, enquanto que as “Irmãs Menores de Maria Imaculada” prezam-se de, por mais dum decênio, poderem servir os hóspedes da Casa “Padre Pio”, Residência para Anciãos.

Elas desejariam levar “o alívio do sofrimento” como o leva Maria Santíssima, ajudando também os sofredores a oferecerem a Deus as alegrias e as penas de cada dia, a viverem tudo com Ele e por Ele, “pela intercessão da Imaculada”.
Padre Elias M. Bruson (o co-fundador que citamos acima), morreu, repleto de luz divina, após uma manhã de terrível dor física porque dispensara a morfina, repetindo continuamente com inefável amor: “Tudo, tudo, tudo”.
À Mãe M. Isabel, que lhe havia perguntado o que pretendia dizer, respondeu com intensa dileção: “Por Jesus! Por Jesus! Por Jesus!” - M.E.P.
La Casa Sollievo della Sofferenza, n. 3, febbraio 2007, pp.10-12.


Fonte: Pe. Bernardino Trevisan