Preservativos, sexo e amor



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Recentemente, no lançamento de uma campanha governamental para conter a disseminação do HIV, as famílias brasileiras e a Igreja foram injustamente acusadas de hipocrisia porque, segundo a autoridade que discursava, não estariam dispostas a debater temas relativos à educação sexual “por puro preconceito”, e porque estas instituições estariam voluntariamente ignorando a realidade sobre a vida sexual da sociedade atual e da nossa juventude.
Repetidas vezes temos explicado a posição da Igreja sobre tais questões, mas ao que parece essas razões, ainda que exaustivamente apresentadas, são ignoradas ou, na melhor das hipóteses, incompreendidas. Por isso, vemo-nos obrigados a, mais uma vez, voltar ao assunto.

Em primeiro lugar, é preciso entender que a Igreja não ignora a realidade social, mas a interpreta e encaminha de forma própria, de acordo com os seus princípios.
Todos concordamos que a realidade é algo objetivo, que não se pode negar; no entanto, a avaliação que se faz dela é algo totalmente distinto. Por sua vez, os princípios humanos não são um apêndice ou conseqüência necessária de uma situação social concreta, variando de acordo com as circunstâncias: são os pilares sobre os quais fundamentamos nossa vida e nossas atitudes. A conseqüência lógica dessas duas premissas é que não podemos, em vista de uma determinada realidade, por mais complexa que seja, alterar os princípios pelos quais nos balizamos. Não poderíamos, por exemplo, aprovar o racismo só porque numa determinada sociedade predomina essa tendência; lembremo-nos das catastróficas conseqüências desse tipo de atitude na Alemanha dos tempos de Hitler, ou mesmo na África contemporânea. Tampouco podemos considerar como aceitável ou de acordo com a dignidade humana a exploração sexual de menores ou o comércio de drogas, por mais comuns que sejam esses fatos em nosso país. Nas sociedades de cada tempo há estados de evolução e de involução.

A Igreja tem uma determinada maneira de avaliar as relações sexuais e o matrimônio, de acordo com o que considera serem os desígnios de Deus, encontrados na Bíblia. Para ela, as relações sexuais não têm como finalidade, apenas, a de satisfazer um instinto, mas a de integrar-se na totalidade da personalidade humana, no âmbito do amor e da afetividade e sempre abertas à vida. Não é isso o que se procura com os preservativos.

“Quando se exclui ou marginaliza o compromisso afetivo nas relações interpessoais – escreve Polaino-Lorente, um eminente especialista na matéria – a relação humana (...) desce a um nível mais baixo do que o das relações entre animais (...). O tratamento do homem pela mulher e vice-versa, como simples objeto de prazer, é sempre um atentado contra a essência do ser humano. A repressão da dimensão afetiva gera sentimento de culpa, de subestimação, de nojo, de náusea etc. – inclusive entre os não-cristãos –, que acaba por cercar a pessoa no estreito perímetro da neurose”. 1

O coração humano nasceu para amar. E quando não se lhe dá um amor à altura da sua dignidade, termina resvalando para situações infra-humanas. Sexo sem amor é frustrante. Todo homem maduro – especialmente toda mulher – tem consciência disso.
A autoridade citada no início deste artigo afirma que “sexo é incontrolável. Como nós não temos controle é preciso educar. Preservativo tem que ser usado e ensinado como usar. Sexo tem que ser feito e ensinado como fazer.” (O Globo, 08 de março de 2007, p.37). Nós diríamos que é preciso ensinar a fazer sexo com amor, com respeito, e não com preservativos. O uso dos preservativos – já dizia João Paulo II – acaba estimulando, queiramos ou não, uma prática desenfreada do sexo. 2

Isso é o que pensa a Igreja. Se ela é fiel a este pensamento, não está sendo hipócrita: está sendo coerente. Uma coerência que tem mais de 20 séculos de existência. Nenhuma instituição humana se conservou por tanto tempo. Não seria um descrédito à própria humanidade ter perpetuado essa “hipocrisia”?

É preciso ter a coragem de dizer a verdade aos filhos, à sociedade e ao Estado: não existe sociedade estável sem família bem constituída; não há família bem constituída sem fidelidade conjugal; e não há fidelidade conjugal sem educação da afetividade e do sexo, sem autocontrole. E quando não há autocontrole, o que fazer? O Ministério da Saúde adverte: Não se preocupe: use a “camisinha”! A “camisinha” soluciona todos os problemas...

Perguntamos: a “camisinha” protege das crises conjugais, do sexo prematuro tão perturbador para tantos menores de idade, da delinqüência juvenil e das conseqüências naturais da desestruturação do lar? Sabemos muito bem que a questão não consiste em curar os efeitos; é preciso suprimir as causas. Para o problema da poluição da água, a melhor solução não é colocar um filtro em cada torneira, mas purificar a água na fonte, no reservatório. Da mesma forma, quando se trata de agir preventivamente em relação à gravidez precoce ou ao grave problema da AIDS e das DSTs, a solução não está na “camisinha”, mas na mudança de atitude: um verdadeiro trabalho educativo no qual a Família, o Estado e a Igreja têm que envidar os mais vigorosos esforços. Não, não é com preservativos que se solucionarão os problemas do desregramento sexual, mas com um trabalho profundo que venha a colocar o valor da vida, do amor, do sexo, do matrimônio e da família no lugar que merecem. E é nessa empreitada que a Igreja está inserida.

A Igreja não nega o óbvio; não é hipócrita. A Igreja reconhece o óbvio — a realidade — mas esforça-se por superá-la. Talvez ela seja a única entidade, em âmbito mundial, que tem a coragem de chamar as coisas pelo seu verdadeiro nome. E talvez seja por essa razão que é tão duramente criticada: a luz alegra os olhos sadios e fere os que estão doentes.
A Igreja não pretende que se concorde com ela. Muito menos exige admiração. O que a Igreja deseja é, simplesmente, respeito!

Nova Friburgo, Rio de Janeiro, 13 de março de 2007.
D. Rafael Llano Cifuentes - Bispo de Nova Friburgo – RJ
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família - CNBB
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1 Polaino-Lorente, A. Los Cuatro Puntos Cardinales de La Sexualidad Humana, In Cuestiones Fundamentales Sobre Matrimonio y Família (Segundo Simpósio Internacional de Teologia) Universidad de Navarra, Pamplona, 1980, p. 468.
2 Cfr. Augusto Silberstein e Paulo Marcos Brancher, “Pergunte ao Papa: 50 Perguntas a João Paulo II”, Legnar Informática e Editora Ltda., São Paulo, 1997, p. 57.


Fonte: D. Rafael Llano Cifuentes