O Dia da Glória



Foram momentos indescritíveis de alegria e de glória, que uniram numa única vibração os corações dos que tiveram a sorte de ser “abraçados” pela colunata de Bernini e os dos menos afortunados, que ficaram em casa, acompanhando pela televisão, ou apinhados ao longo da Via della Conciliazione até o Castel Sant’Angelo.
Quem escreve isto é o Dr. Gennaro Preziuso. De seu longo artigo, publicado em Voce di Padre Pio, condensamos alguns dados para dar aos leitores um vislumbre ao menos do que foi aquela festa.

A afluência dos peregrinos começou já na tarde anterior, com a chegada de caravanas das distantes Américas, da África, do Japão e de muitos pontos da Europa. Tendo em conta que, na Europa, o mês de junho é o começo do verão, foram descarregadas na praça 900.000 garrafas de água para serem distribuídas gratuitamente. E dez carros-tanque ficaram em prontidão para pulverizar a multidão com água nebulizada, se preciso fosse.
O movimento na Praça iniciou cedo. O primeiro dos nove trens especiais chegou de Pietrelcina às 4 da manhã. Dois mil ônibus e um número incalculável de automóveis e lotações a muito custo conseguiram acomodar-se nas áreas de estacionamento.

Desde a madrugada, homens, mulheres, crianças, idosos, padres, religiosos e escoteiros, de bonés coloridos e banquinho na mão, depois de porem à dura prova os responsáveis pelo transporte público e os mil policiais mobilizados, foram tomando conta da praça. Uma sensação indizível, forte e doce ao mesmo tempo, acariciava o coração de todos. Sentia-se por toda parte um frêmito de expectativa.
Carabineiros e agentes de segurança, além de atenderem aos que enfrentam algum problema, se mantinham atentos para prevenir desordens e ações terroristas.
O céu parecia de cobalto, e não soprava a mais leve brisa. A temperatura subia inexoravelmente.
Poucos minutos antes das 10 horas, mais de 50 concelebrantes transpunham a porta central da Basílica, e o Papa, a bordo de seu jipe branco, fazia seu ingresso no átrio. Encurvado, apoiava-se pesadamente na bengala. Seu caminhar incerto lembrava o do Padre Pio nos últimos anos. Seu rosto, agigantado pelos nove telões posicionados em pontos estratégicos da Praça, tinha a expressão serena, mas também de cansaço e emoção.
Descansou um pouco na poltrona, e então, recolhendo o resto das forças, anunciou, com voz trêmula: Hoje a Igreja insere no álbum dos Santos o beato Padre Pio de Pietrelcina.

A estas palavras, a multidão de mais de 300 mil peregrinos explodia num fragoroso e interminável aplauso. Num tripúdio de entusiasmo, todos agitavam suas bandeirinhas e seus bonés. Muitos caíam de joelhos e desafogavam a emoção num pranto comovido. Os sinos da Basílica, somando seus repiques aos de quase todas as igrejas de Roma, enchiam o céu de acordes festivos.
Neste momento começavam a chegar aos telões da Praça de São Pedro as primeiras imagens enviadas de Pietrelcina e de San Giovanni Rotondo. Em Piana Romana, padre Marciano aparecia presidindo uma solene liturgia, unindo assim os pucinari numa mesma exultação com os que se encontravam em Roma.
Em San Giovanni Rotondo quem celebrava era o bispo romano Luís Moretti, quando mais de 40.000 fiéis puderam assistir ao lançamento de 12.327 balõezinhos azuis e amarelos, equivalentes ao número de dias transcorridos entre a morte do Padre Pio e sua canonização. Tudo ao som das bandas da Polícia Estadual e da Marinha Militar que, interpretando os sentimentos da população, tocaram por duas vezes o hino nacional.

A seguir, os telões da Praça de São Pedro mostravam o sino da antiga igrejinha do convento, que parecia enlouquecido, tentando a todo custo fazer ouvir sua voz. Das janelas da Casa Alívio do Sofrimento, médicos, enfermeiros e doentes abanavam seus lenços, enquanto, do alto, dois aviões e dois helicópteros lançavam milhões de pétalas de rosas e uma nuvem de pequenos volantes com frases do novo santo.
Na Praça, o sol dardejava implacável. Cardeais e bispos se protegiam com umbelas e barretes. No meio da multidão, alguns sentiam-se mal. O termômetro da proteção civil marcava 36 graus, que um elevado nível de umidade tornava realmente insuportáveis. Nas tendas laterais registraram-se 435 atendimentos médicos. Para minorar o problema do calor, entraram em ação os dez carros-tanque, espalhando sobre a multidão água nebulizada. A tonificante chuva artificial durou alguns minutos.
Pelo fim da Missa, nada menos de seiscentos sacerdotes se espalharam por aquele mar humano para distribuir a Comunhão. Tantos eram os comungantes que as hóstias precisaram ser dividas em dois ou três pedaços.

No fim, para invocar o auxílio de Nossa Senhora, o Papa entoou o Angelus. Estava feliz, mas não de todo satisfeito. Gostaria de fazer mais alguma coisa para honrar o “seu” Padre Pio. E com surpresa anunciava que “a memória litúrgica do novo santo, com o grau de obrigatória, seria inserida no Calendário Romano no dia 23 de setembro, dia do seu nascimento para o céu”. Isto significava que todos os padres, cada ano, na Missa desta data, deveriam obrigatoriamente fazer memória de São Pio.
O Papa sentia-se realizado, mas sem forças. Não obstante, sob o peso do calor e dos paramentos, quis ainda saudar os devotos do Padre Pio e, no seu jipe descoberto, percorreu a Praça e a Via della Conciliazione, até a altura do Castel Sant’Angelo, entre os “vivas” da gente que tanto o amava e que tanto gostaria de abraçá-lo.


Fonte: (Padre Pio, O Santo do Terceiro Milênio, Olivo Cesca, 2ª edição, Pp. 337-341).