HISTÓRICO DA OCUPAÇÃO ESPACIAL DO CERRO COMPRIDO

contribuição de Oni Nardi

 

A área que atualmente conforma o território de Faxinal do Soturno teve sua colonização iniciada por volta de 1884 com o assentamento de levas imigratórias provindas do núcleo colonial inicial de Silveira Martins. Segundo Cesca (1975) o município teve sua origem do núcleo soturno à margem esquerda do grande rio Soturno, onde formou se logo uma florescente comunidade de imigrantes italianos, que de início se chamou campo dos bugres e, por fim, Faxinal do Soturno.

A denominação campo dos bugres, segundo o referido autor, teria sua justificativa ligada ao fato de terem sido encontrados cemitérios e utensílios indígenas identificados como pertencentes aos índios Tapes, os quais tiveram seus últimos redutos em ambientes compreendidos pelas costas do Rio Jacuí e Soturno, o que comprova que os indígenas foram os primeiros habitantes da área onde hoje se encontra o município de Faxinal do Soturno.

A origem do nome Faxinal do Soturno deriva do nome atribuído ao rio que banha o município, denominado por uma expedição da carta geográfica que estudava os confluentes do rio Jacuí e suas possibilidades de navegação. A designação rio Soturno foi motivada pelos pantanais ribeirinhos que se apresentavam cobertos de mato cerrado e escuro, formando um ambiente soturno e a denominação atual do município foi dada justamente em função da existência naquele local, de campos cobertos de mato curto ao longo do Rio Soturno, chamados de Faxinal (CESCA, 1975).

A área que atualmente forma o território do município de Faxinal do Soturno até 1888 estava político-administrativamente vinculada à colônia Italiana de Silveira Martins. Contudo após esta data Faxinal do Soturno desmembrou-se da colônia de origem e suas terras passaram a fazer parte dos municípios de Júlio de Castilhos e Cachoeira do Sul, constituindo o quinto distrito, (SANTIN E ISAIA, 1990). O quinto distrito de Cachoeira do Sul, além de Faxinal do Soturno, englobava também as localidades de São João do Polêsine e de Dona Francisca a qual constituía a sede.

Após o interregno cronológico de 71 anos em que esta área permaneceu político-administrativamente vinculada aos municípios de Júlio de Castilhos e Cachoeira do Sul, em 30 de novembro de 1958, por intermédio de um plebiscito, a maioria da população disse sim a emancipação e confirmou Faxinal do Soturno, que concorria com Dona Francisca e São João do Polêsine, para ser a sede do novo município.
A decisão popular, pela qual Faxinal do Soturno ganhou o direito de sedear o novo município provocou um grande descontentamento por parte das localidades concorrentes (São João do Polêsine e Dona Francisca) a ponto de se unirem e elegerem Antônio Soccal, de Dona Francisca, como primeiro prefeito. Em uma espécie de retaliação, este, ao assumir o cargo, de imediato transferiu a sede do novo município e a administração para Dona Francisca o que provocou, na época um grande escândalo político que quase custou o seu impeachment (CONDESUS, 2006).

O conflito entre as três localidades só foi equacionado em 1965, quando Dona Francisca finalmente foi emancipada e, mais tarde em 1992, São João do Polêsine também conseguiu sua emancipação. Desta forma, através de acirrada disputa, Faxinal do Soturno alcançou sua emancipação político-administrativa, tendo sido o município criado em 12 de Fevereiro do referido ano por força da lei estadual n° 3.711. O município confronta-se territorialmente ao norte com o município de Nova Palma, a oeste com Ivorá e Silveira Martins, ao sul com o município de São João do Polêsine e a leste com o município de Dona Francisca.

Atualmente o município de Faxinal do Soturno possui 6.343 habitantes distribuídos em um território de 169,95 Km² (IBGE, 2007), que, além da sede, é composto pelas localidades de Guarda-mor, Linha Formosa, Novo Treviso, Sitio Alto, Chapadão, Linha Colonial, Linha Nova Palma, Santos Anjos, Sitio dos Mellos, Linha Dona Francisca, Linha São Luis, Saxônia, Val Veronês e de Cerro Comprido que podem ser melhor visualizados no croqui abaixo (Figura 1).



Figura 1 – Croqui da organização territorial de Faxinal do Soturno
Fonte: Folder Turístico, 2006.

 

A área de abrangência do Cerro Comprido, sobre a qual atualmente se encontra a Ermida de São Pio de Pietrelcina em fins do século XIX era composta por terras particulares de posse de Theobaldo Barbosa de Lima, o qual era dono de uma grande fração de terras a sudeste de Faxinal do Soturno, cujo loteamento contribuiu na colonização do município. A fração destas terras sobre o Cerro Comprido foi delimitada e loteada em 1885 dando origem a quatro lotes, orientados diferentemente dos demais, devido a posição geográfica do cerro, no sentido leste-oeste.

Os 4 lotes demarcados na época sobre a área que engloba o Cerro Comprido, de acordo com a planta de loteamento da Região da Quarta Colônia de Imigração Italiana (RQCII) são os de número 284, 285, 286 e 287 sendo estes adquiridos por Manoel Antonio dos Santos em 24/01/1887, Lauriano Lima em 7/10/1887, Manoel Alves, 7/12/1885 e por Rodolfo dos Santos, em 7/12/1885, respectivamente (SPONCHIADO, 2006).

Posteriormente partes destes lotes foram adquiridos por imigrantes italianos provenientes do núcleo colonial de Silveira Martins, áreas estas que foram transmitidas através de compra e venda e hereditariamente no decurso do tempo para as famílias Montagner, Ragagnin, Vendrusculo, Cassasola, Jordani, da Rocha, Rodrigues entre outras.

Atualmente o Cerro Comprido representa um espaço ocupado por sete famílias, quais sejam: Cela (2) Da Rocha (2) e Rodrigues (3), que residem no local há mais de 70 anos subsistindo através da prática da agricultura, com destaque para os cultivos do milho, soja, trigo, feijão e fumo, que contribuem para a formação de um mosaico paisagístico bucólico de alta beleza cênica (CELA; DA ROCHA; RODRIGUES, 2008).

Segundo as referidas famílias a construção da Ermida de São Pio de Pietrelcina, promoveu uma grande dinamização sociocultural do local, uma vez que este templo é responsável pela atração de grande contingente de peregrinos que visitam o local frequentemente, bem como pela oferta de missas quinzenais e melhorias na infra-estrutura de acesso ao Cerro Comprido.

REFERÊNCIAS

CELA, D; DA ROCHA, O; RODRIGUES E. R. [Entrevistas disponibilizadas em 17/06/2008]. Cerro Comprido, Faxinal do Soturno, 2008. 

CESCA, O. Faxinal do Soturno: sua história, sua gente. Santa Maria: Rainha, 1975.

CONDESUS, CONSÓRCIO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DA QUARTA COLÔNIA. Histórico de Faxinal do Soturno. Faxinal do soturno, 2006.

IBGE, INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Contagem da população 2007. Disponível em: http://www.ibge.gov.br. Acesso em: 18 Jun. 2008

SANTIN, S. e ISAIA, A. Silveira Martins: patrimônio histórico-cultural. Porto Alegre: EST, 1990.

SPONCHIADO, L. [Entrevista disponibilizada em 25/07/2006]. Nova Palma: Centro de Pesquisas Genealógicas, 2006.